Eles foram muitos, e todos foram inesquecíveis! Eles nunca perguntavam nada e sempre socavam aquele que olhasse duas vezes! Furavam de balas todos os que cruzaram seus caminhos e nunca erravam o alvo ou atingiam um inocente. São os heróis de ação dos anos 80 e 90 que lotaram nossas salas e deixaram sua marca única na história do cinema (e das vídeolocadoras).

“Você é a doença…”, disse o personagem vivido por Silvester Stallone em Cobra, “Eu sou a cura!”, completa ele colocando fogo no malfeitor que já está empapado de gasolina e levando à loucura o público dos cinemas brasileiros. “Cobra”, filme de 1986, dirigido por George P. Cosmatos foi apenas um exemplo, dentre tantos outros filmes que estrearam por aqui e encheram os cofres dos estúdios que aproveitaram um momento cultural único no país (e por que não dizer, no mundo) para nos inundar de títulos e histórias simples, esdrúxulas contendo heróis sem expressão, mas que foram marcantes para todos nós.
O período dos anos 80 e 90 foi o mais fértil para o aparecimento dos heróis injustiçados, estranhos que chegam para resolver problemas de décadas, vingadores solitários, lutadores que precisam se provar, pais que fazem justiça com as próprias mãos, etc.. As histórias sempre foram terríveis, o orçamento era pífio e o herói era (muitas vezes) canastrão! Mas foram tantos filmes e tantos “heróis” que acabou dando origem a um movimento: o dos heróis dos anos 80 e 90! Acredite em mim quando digo que eles existiram!
Não vou me extender aos antigos (Cary Grant e companhia bela), mas apenas citar aqueles que vieram e causaram alvoroço nos cinemas brasileiros, a começar pelo policial durão Dirty Harry, vivido por Clint Eastwood. Dono do famoso bordão “Make my day!”, Harry era o pesadelo dos bandidos e quando ele encostava o carro atrás do vilão, era o início de uma saraivada de balas. Clint pode ser considerado o grande herdeiro do pistoleiro John Wayne, pois também marcou presença como o herói sem nome de um oeste bravio em “Três Homens em Conflito”.
Mas vamos pular para os anos 80 e 90 pois a fila de heróis deste período é bem extensa:
Charles Bronson

Alçou o estrelado com sua franquia “Desejo de Matar” que já estava no quarto filme quando marcou presença por aqui nesse período. Charles Bronson é aquele que tem cara de boa praça até que é provocado e nada diz para então retornar ao local e exterminar meio quarteirão de pessoas. O sucesso dessa franquia foi tão absoluto que rendeu ao todo 5 filmes. Vale ressaltar que nos anos 80, Bronson já tinha 60 anos de idade e era um dos atores mais bem pagos do mundo sob contrato com a lendária e folclórica produtora Cannon Films.
Chuck Norris

Dispensa apresentações. A geração Z o conhece somente pelos memes, mas seus pais certamente acompanharam as aventuras de “Força Delta”, “Braddock” e “Invasão EUA”. Ex-campeão mundial de karatê que treinou com Bruce Lee, Chuck Norris é o ator que sempre dispensou expressões faciais e interpretava a si mesmo batendo em terroristas.
Silvester Stallone
O herói besuntado em óleo por excelência. Começou com “Rambo: Programado para Matar” no qual (curiosamente) matou somente uma pessoa (de forma acidental) e descambou para a canastrice total com “Rambo II, a missão!” destruindo exércitos inteiros sozinho! Mas Rambo II foi um sucesso absoluto! Chegou a fazer parte de discursos do então presidente americano Ronald Reagan, tamanha a sua importância cultural para os EUA. Aqui na terrinha também fez sucesso. Numa época em que os cinemas ainda eram de rua e não havia os tais multiplexes, “Rambo II” gerou filas que davam voltas no quarteirão em cidades de todo o país. As sessões ficavam lotadas de jovens e adultos que vibravam, gritavam e aplaudiam de pé cada vez que o herói explodia um helicóptero inimigo com uma flecha explosiva. Stallone era uma diva absoluta.

Depois deste sucesso, ele lançou “Cobra”, (em que os brazucas se referiam a ele como Stallone Cobra) “Rocky IV” e “Rambo III” para completar seu “heróico” legado por aqui. Stallone ainda chegaria muito tempo depois com “Os Mercenários” mas podemos dizer que o herói retratado não tinha o mesmo shape nem a psiquê de outros tempos.
Arnold Schwarzenegger
O grande “rival” de Stallone nas bilheterias, no número de mortes em filmes e no “shape”. Fato inclusive confirmado por Arnold numa entrevista, tempos depois. Mas ele não deixava por menos. Arnold entrava em cena (ou num cinema) quando Stallone saía e nunca deixou a contagem de corpos dos vilões diminuir. Em “Comando para Matar” o personagem de Arnold (John Matrix) assassina espantosas 81 pessoas sozinho na ilha, garantindo um dos maiores “body counts” individuais da história do cinema.

Mas sua fama de brutamontes fazedor de dinheiro começou antes. Arnold já era campeão de fisiculturismo nos anos 80, quando foi chamado por James Cameron para ser o vilão de um filme B de baixo orçamento que o diretor estava testando. O nome do filme? “Exterminador do Futuro”. Bastaram 17 falas e um plano de seu corpo musculoso (além da famosíssima fala “I’ll be back!!”) para que o filme virasse um fenômeno de bilheteria. A partir dali, a regra era clara: bastava colocar armas gigantes na mão do Arnold e deixá-lo soltar frases de efeito para que o filme estourasse na bilheteria. Ele enfileirou outros sucessos absurdos como “O Predator” (1987) e “Inferno Vermelho” (1988). Os anos 90 foram igualmente insanos para o herói. Ele tornou-se o rei incontestável dos blockbusters de verão. Filmes como “O Vingador do Futuro” e “Exterminador do Futuro 2” são alguns exemplos desse novo patarmar.
Jackie Chan
Enquanto Stallone, Schwarzenegger e Bronson conquistavam o Brasil nos anos 80, uma revolução nos filmes de ação acontecia na Ásia. No início de sua carreira nos anos 70, os estúdios tentaram forçar Jackie a ser o “novo Bruce Lee” (um sujeito sério, letal e invencível). Ele odiou a ideia. Na década de 80, ele assumiu o controle criativo total de seus trabalhos sendo que frequentemente teve de acumular funções de diretor, produtor, coreógrafo e ator e fundou a lendária Jackie Chan Stunt Team. Seus filmes eram verdadeiras aulas de coregrafia, decupagem de cena e edição. Foi nessa década que ele entregou o que muitos consideram o auge da ação física no cinema asiático com “Armadura de Deus” (1986) e “Police Story – A Guerra das Drogas” (1985) além de múltiplas lesões na cabeça e coluna, algo que o acompanharia até a atualidade.
Se nos anos 80 Jackie Chan dominou a Ásia, os anos 90 serviram para apresentá-lo ao Ocidente.

Até então, o cinema americano costumava filmar cenas de luta muito de perto (planos fechados) com cortes rápidos para esconder que os atores não sabiam lutar. Jackie fez o oposto: filmou suas lutas com planos abertos e “takes” longos. Ele queria que o público visse que era realmente ele que estava caindo e apanhando. Além disso, ele usava uma técnica de edição que podemos chamar de “duplo impacto”: quando um golpe ou queda era muito espetacular, a edição mostrava o mesmo impacto duas (ou até três) vezes de ângulos diferentes em rápida sucessão, quebrando a continuidade tradicional do cinema para enfatizar a dor e o peso do movimento. “Arrebentando em Nova Iorque” (1995) e “A Hora do Rush” cimentaram seu estrelato em Hollywood e fizeram muito sucesso no Brasil. Sua parceria com Chris Tucker renderia renderia dois outros filmes da franquia. Foi o estrondo de Jackie Chan em meados da década de 90 que provou aos executivos americanos que havia um mercado gigantesco sedento por artes marciais autênticas. Isso gerou uma “Invasão de Hong Kong” em Hollywood com a entrada de Jet Li e Michelle Yeoh.

Jet Li foi “importado” para ser o vilão de “Máquina Mortífera 4” e seus movimentos em cena eram tão rápidos que o diretor Richard Donner teve de pedir a ele para gravar mais devagar pois as câmeras que filmavam a 24 quadros por segundo não captavam toda a movimentação. É mole?
Jean Claude Van Damme
Se Arnold e Stallone eram os tanques de guerra que destruíam tudo pela frente, Jean-Claude Van Damme era o carro esporte da pancadaria: elegante, plástico e incrivelmente flexível. Com seu lip gloss nos lábios e músculos massageados, o Mister Bruxelas não atirava de bazuca, mas abria um espacate perfeito (o famoso split) e dava um chute giratório no queixo do vilão. Tudo isso em câmera superlenta.

Essa plasticidade veio de um início inusitado para um garoto dos anos 80. Na juventude, Van Damme misturou 5 anos de balé clássico com uma formação faixa preta em caratê. Isso deu a ele uma graciosidade e um controle corporal que os outros brucutus não tinham. Em 1988, tivemos a estreia nos cinemas de um filme absolutamente venerado pelos adolescentes daquele período, chamado “O Grande Dragão Branco” que catapultou Van Damme ao estrelato e estabeleceu a fórmula: torneio mortal, treinamento duro, um vilão gigante (Chong Li) e a vingança do herói no final. Se você perguntar para qualquer brasileiro que cresceu nos anos 90 quem era o maior herói de ação, Van Damme vai ocupar o topo da lista. O sucesso dele no Brasil foi um fenômeno cultural por três grandes motivos:
- Era o “rei” das vídeolocadoras: os filmes de Van Damme ficavam pouco tempo nos cinemas para depois serem lançados nas vídeolocadoras e tornarem-se campeões de encomenda pelos brasileiros.
- A tevê aberta brasileira (Globo e SBT) reprisou seus filmes à exaustão. Era o campeão das “telas de sucesso” e “supercine”. Era impossível existir férias escolares sem os fimes dele.
- Aparição no Gugu: foi quando ele deixou de ser um astro no Brasil, para tornar-se um mito. an Damme veio ao Brasil e participou do programa Domingo Legal, apresentado por Gugu Liberato, no SBT. Em uma das cenas mais caóticas e memoráveis da TV brasileira ao vivo, Van Damme dançou com a cantora Gretchen e simulou coreografias de luta. Esse momento selou para sempre o carinho do público brasileiro pelo ator, transformando-o de “astro de Hollywood distante” em um “cara gente boa que curte o Brasil”. Van Damme fez escola para Terry Crews.
Wesley Snipes
No início dos anos 90, Snipes já era um ator dramático respeitado (tendo trabalhado com Spike Lee em Febre da Selva). Mas foi em 1992, com Passageiro 57 (Passenger 57), que ele chutou a porta do gênero de ação. O filme era basicamente um “Duro de Matar em um avião”, mas o que o tornou inesquecível foi a atitude do personagem John Cutter. A frase de efeito clássica do filme, “Always bet on black” (Sempre aposte no preto), dita antes de ele espancar o vilão, virou seu cartão de visitas.

Em 1993, Snipes entregou a sua performance mais deliciosamente canastrona em O Demolidor (Demolition Man), estrelando ao lado de Sylvester Stallone, quando deu vida ao vilão Simon Phoenix, um psicopata loiro, hiperativo e ultra violento que é descongelado no futuro. Snipes roubou o filme completamente. Enquanto Stallone fazia o policial durão e entediado, Snipes estava se divertindo absurdamente, destruindo a cidade, rindo histericamente e soltando piadas. A química (ou a falta dela, já que eles se batiam o tempo todo) entre os dois transformou o filme num clássico cult.

O ápice de sua trajetória como brucutu veio em 1998, quando Snipes reescreveu as regras do jogo com Blade, o Caçador de Vampiros. Muito antes de Tobey Maguire vestir o colante do Homem-Aranha ou dos X-Men chegarem aos cinemas, Blade já provava que gibis podiam gerar blockbusters sombrios e lucrativos. Vestindo óculos escuros à noite e um sobretudo de couro imponente, ele despachava sugadores de sangue com uma frieza cirúrgica, transformando estacas de madeira em munição de metralhadora.
Uma Maratona de Heróis
Acompanhei todos esses heróis dos anos 80 e 90 naqueles clássicos cinemas de bairro (muitas vezes equilibrando um pacote de salgadinho barato no colo porque a grana não dava para a pipoca).
E quer saber? Ver a justiça sendo feita (geralmente com um chute giratório) fazia tudo valer a pena; era a certeza de que o ingresso valeu cada centavo. É claro que muitos brucutus ficaram de fora dessa lista, então agora é com você: quem faltou? Deixe nos comentários qual herói mais marcou a sua vida e onde você assistia a essas pérolas (no cinema de rua ou sujando o cabeçote do videocassete em sua casa)! Vai ser um prazer ler o seu comentário!
