a hora do espanto

“A Hora do Espanto”, quem lembra?

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Em 1986, ninguém na Columbia Pictures imaginava que um filme de vampiro de baixo orçamento, filmado em pouco mais de dois meses e praticamente ignorado pelo estúdio, se transformaria em um dos maiores clássicos do terror dos anos 80. Mas foi exatamente assim que nasceu A Hora do Espanto: de uma ideia simples, muito talento e uma liberdade criativa que Hollywood raramente concede.

Achei incrível descobrir que meu filme de terror predileto dos anos 80 estava disponível no catálogo do streaming. E não fora permanentemente apagado para o “internet archive”. Estou falando de “A Hora do Espanto” (Fright Night) uma relíquia de 1986 dirigida por Tom Holland cujo sucesso fez o estúdio lançar outras duas continuações (além de uma refilmagem décadas depois). Já é sabido as empresas de streaming estão pouco interessadas em manter filmes antigos (e até mesmos novos) em seu catálogo. Espaço nos servidores para eles significa dinheiro sem retorno. Não existe qualquer senso de preservação (de obras) nem sentimentalismo cinematográfico nessas empresas. Money rules! Daí veio a minha surpresa ao ver o cartaz (sim, o cartaz, e não o thumbnail) do filme e logo abaixo, o botão “Assistir”.

Não pude deixar de me lembrar das tentativas (algumas frustradas) de assistir a esse clássico no meu cinema predileto: o extinto cine Center Norte, em São Paulo (além dele ser o único em que minha mãe me deixava ir).

Quem nunca tentou entrar num cinema fingindo ter mais idade que atire a primeira pedra. Nesse caso eu felizmente consegui me esbaldar na cadeira desconfortável e assistir a algo que viria a ser um clássico de terror dos anos 80. “A Hora do Espanto” encheu os cinemas brasileiros em 1986 e tornou-se um sucesso de bilheteria, algo que viria a triplicar seu modesto orçamento de 9 milhões de dólares e faria a Columbia Pictures lançar pouco depois sua continuação em 1988.

Chris Sarandon: vampiro sedutor!

“A Hora do Espanto” não apenas assustou como também embalou muita gente em sua trilha sonora absolutamente arrebatadora que misturou rock, new wave, synth pop e a contribuição de Brad Fiedel que deixou a música ambiente tão envolvente que é impossível hoje em dia não associá-la à figura estonteante de Jerry Dandridge (Susan Sarandon), o vampiro sedutor do filme. Uma curiosidade sobre as músicas: por um bom tempo elas foram super raras no mercado! Saíram em LP e cassete em 1985, sumiram em questão de dias, e depois só se ouvia falar delas em rodinhas de cinéfilos e seções de cartas de revistas de cinema. O interesse dos fãs era tão grande que chegaram a circular edições piratas de fitas cassetes até que muitos anos depois houve um relaçamento especial em CD no mercado americano.

A trilha reúne artistas bastante conhecidos da década de 1980, numa lista que você pode encontrar hoje no Spotify:

  • J. Geils BandFright Night
  • Brad Fiedel Come to me
  • Sparks Armies of the Night
  • Devo Let’s Talk
  • Autograph You Can’t Hide from the Beast Inside
  • April Wine Rock Myself to Sleep
  • Ian Hunter Good Man in a Bad Time
  • Evelyn “Champagne” King Give It Up
  • White Sister Save Me Tonight

A cena em que o vampiro seduz a pequena Amy (Amanda Bearse) em uma boate é uma das mais antológicas já feitas no cinema e já virou depois uma enxurrada de produtos pops que até hoje inspiram jovens cineastas e nos fazem pensar algo como, “ei, já vi isso antes!”. É o cinema em seu estado mais puro e arrebatador! “A Hora do Espanto” tem ainda outro mérito: foi totalmente produzido com bonecos e maquiagem numa era pré efeitos digitais. Então acreditem, crianças, aquilo que vocês veem em cena, foi realmente construído e animado. E criado por um designer vindo de “Os Caçafantasmas”, seu nome? Richard Edlund, um dos mais conceituados especialistas em efeitos práticos para cinema daquele período.

Segundo o próprio diretor Holland, a história veio de um conceito tirado da fábula “O Pastor que Gritava Lobo”, transvertida para o mundo do terror. Enquanto muitos filmes de vampiro dos anos 70 e 80 apostaram em castelos góticos e cenários antigos, esse trouxe o monstro para o seu bairro, mais especificamente, para a casa ao lado.

“E se o seu vizinho fosse um vampiro?

Basicamente foi esta pergunta que fez milhões de pessoas irem aos cinemas conferir a premissa escrita pelo diretor (que escreveria, anos mais tarde, outro terrorzaço chamado “Brinquedo Assassino”). Muito embora a fábula fosse interessante, havia um longo caminho até que ela se transformasse numa história. Em um entrevista, o diretor disse que a ideia que destravaria o restante do filme veio com uma pergunta, “Se ninguém acredita no mocinho, para quem ele pediria ajuda?”

A resposta veio quase que imediatamente: num apresentador falido de filmes de terror! Em 1986. os programas sobre vampiros e lobisomens eram meio que notórios nas madrugadas dos EUA. Nascia então Peter Vincent, o personagem que se tornaria co-central no filme. O restante da história foi sendo estruturado com mais facilidade. E adivinhem que foi escalado originalmente para viver o caçador de vampiros?

Ele mesmo, Vincent Price. Mas o ator já estava se afastando propositalmente de quaisquer filmes de terror naquela época (ele seria mais tarde escalado para viver o inesquecível Sauron, de “O Senhor dos Anéis”) e então o diretor recorreu a Roddy McDowall, uma escola certíssima que resultou numa atuação memorável no longa.

Após ter escalado seus atores, Holland (que teve uma formação em Teatro, antes de tornar-se diretor) colocou todos para ensaiar todas as cenas como se fosse montar uma peça teatral. Ele ainda incentivou cada um dos atores a criar uma biografia completa para seu personagem. Isso ajudou a todos a delinear melhor cada uma das cenas e tornou os diálogos mais naturais. Graças aos ensaios, Holland conseguiu filmar no máximo duas a três tomadas de cada cena e pode terminar as gravações no prazo.

O famoso cartaz que destaca esse filme dentre os demais (a boca escancarada cheia de dentes do vampiro) foi criada da mesma maneira que se cria toda grande ideia: na pressa! Não havia orçamento nem tempo para fazer um acessório de um visual assustador para uma cena. O artista plástico Randall William Cook bolou uma mandíbula bem assustadora em seu final de semana. O resultado ficou tão bom que foi parar no cartaz do filme, uma das peças de marketing mais eficientes já produzidas pelo cinema. Quem nunca viu numa locadora um totem de “A hora do espanto” é porque nunca entrou na seção de terror dela.

Enfim, tive de assistir novamente a esta preciosidade. Desta vez, devidamente acompanhado pelo filho e tentando não ser o chato que sabe tudo sobre o filme, apenas me deliciando com os sustos mais uma vez e, invariavelmente, torcendo para que meu infante de 15 anos tenha ao menos metade da euforia que senti na minha primeira vez.

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