A Odisseia
Aventura Épica / Ação / Fantasia – EUA – 14 anos
Título Original: The Odyssey
Duração: 2h 53min
Direção e Roteiro: Christopher Nolan (baseado no poema épico de Homero)
Elenco: Matt Damon (Odisseu), Tom Holland (Telêmaco), Anne Hathaway (Penélope), Zendaya (Atena), Robert Pattinson (Antínoo), Charlize Theron (Circe), Lupita Nyong’o (Helena de Troia / Clitemnestra), Jon Bernthal (Menelau), Mia Goth (Melantho), Benny Safdie (Agamenon), John Leguizamo (Eumeu), Elliot Page, Himesh Patel, Samantha Morton, Bill Irwin e Corey Hawkins
Produção: Christopher Nolan e Emma Thomas (Syncopy) – Distribuição: Universal Pictures
Depois de Oppenheimer, de 2023, (um drama biográfico de três horas que se tornou um blockbuster de quase US$ 1 bilhão), Christopher Nolan escolheu o desafio mais ambicioso da carreira: adaptar a Odisseia de Homero, o poema épico fundador da literatura ocidental, com tecnologia IMAX 70mm de última geração e um elenco de envergadura geracional. A Odisseia estreia com 89 pontos no Metacritic, onde é classificado como “aclamação universal”. O consenso da crítica internacional define o filme como “uma das maiores fantasias épicas já realizadas, fortalecida por atuações poderosas e intimistas”. Raros são os casos em que o hype precede a obra e a obra confirma o hype. Este é um deles.
A narrativa segue Odisseu (Matt Damon) na sua jornada de regresso a Ítaca após a Guerra de Troia, perseguido pela ira de Poseidon e tentado por figuras como Circe (Charlize Theron) enquanto seu filho Telêmaco (Tom Holland) o procura e sua esposa Penélope (Anne Hathaway) espera… e resiste. Nolan escreveu o roteiro sozinho e decidiu contar a história não linearmente, entrecruzando a jornada de Odisseu com os acontecimentos em Ítaca e com a busca de Telêmaco — uma estrutura temporal que é assinatura do diretor e que, segundo os críticos, multiplica a tensão dramática do material. A comparação que mais circula nas resenhas internacionais é com 2001: Uma Odisseia no Espaço, não por imitação, mas pelo mesmo tipo de ambição que coloca a experiência cinematográfica acima de todo o restante.
Matt Damon entrega aqui o que vários críticos já descrevem como a performance definitiva de sua carreira: um Odisseu que não é um herói invulnerável, mas um homem exausto, culpado e obstinado, cujas estratégias de sobrevivência revelam tanto fração quanto coragem. Tom Holland surpreende ao abandonar completamente o registro leve que o fez famoso, construindo um Telêmaco carregado de ressentimento e saudade. Zendaya como Atena e Charlize Theron como Circe protagonizam duas das sequências mais comentadas do filme. A fotografia de Hoyte van Hoytema em 70mm é descrita como a mais deslumbrante de sua carreira o que, tendo ele fotografado Interestellar, Dunkirk e Oppenheimer, representa um patamar extraordinário. As projeções de bilheteria de estreia global superam US$ 200 milhões. Para quem tem acesso a uma sala IMAX, não há razão para adiar: este é o evento do ano no cinema.
A Noite de Alaíde
Documentário / Animação / Musical – Brasil – Livre
Duração: 100 minutos
Direção e Roteiro: Liliane Mutti
Participantes: Alaíde Costa
Montagem: Tatiana Gouveia – Pesquisa: Geraldo Rocha e Marcelo de Paiva – Produção Executiva: Daiane Martins, Liliane Mutti e Daniel Zarvos – Distribuição: Bretz Filmes
Alaíde Costa tem 90 anos (8 de dezembro de 1935), sete décadas de carreira e uma história que o cinema brasileiro ainda não havia contado. Nascida no bairro do Méier, no subúrbio carioca, ela conquistou as rodas da zona sul do Rio nos anos 1960 e tornou-se parceira e voz da tríade de ouro da Bossa Nova (João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes). Única voz negra feminina no núcleo do movimento, foi também aquela que a indústria sistemicamente ignorou: vetada pelas gravadoras no auge da carreira e impedida de participar do histórico show no Carnegie Hall de Nova York, em 1962, ao lado de Johnny Alf (outro pioneiro negro igualmente apagado). A Noite de Alaíde, quarto longa-metragem da diretora Liliane Mutti, pega essa história e a transforma num objeto cinema¬tográfico singular: um cruzamento entre documentário, animação 2D e ficção que acompanha Alaíde aos 90 anos em sua travessia pelos Estados Unidos em busca do palco que sempre foi seu, por direito.
Liliane Mutti (que já havia retratado outra voz feminina apagada da Bossa Nova em Miúcha, a Voz da Bossa Nova, 2022) opta por uma linguagem visual que foge deliberadamente do documentário convencional. A animação 2D, desenvolvida em parceria com o animador Guilherme Marcondes após um ano de estudo técnico, aplica cores emocionais sobre cenários reais de São Paulo (cidade onde Alaíde vive) criando uma estética que é ao mesmo tempo documental e poética. A escolha visual comunica uma verdade que o realismo não conseguiria replicar: Alaíde Costa é tanto uma pessoa real quanto uma figura mítica, e o filme a trata como as duas coisas ao mesmo tempo.
Selecionado para o Marché de Cannes 2026, para o MIFA – Festival de Annecy 2026, exibido no Festival de Cinema Brasileiro de Paris como encerramento especial e aclamado no In-Edit Brasil, A Noite de Alaíde estreia em circuito nacional nesta quinta-feira ao mesmo tempo que em Portugal. Para o público brasileiro, é uma oportunidade rara de ver numa sala de cinema a história de uma artista que construiu o som do país e foi sistematicamente deixada de fora do palco principal da memória cultural. A voz de Alaíde Costa já era suficiente para justificar qualquer homenagem. O filme foi além dela.
A Divina Sarah Bernhardt
Cinebiografia / Drama Histórico / Romance – França – 14 anos
Título Original: Sarah Bernhardt, La Divine
Duração: 98 minutos
Direção: Guillaume Nicloux
Roteiro: Nathalie Leuthreau
Elenco: Sandrine Kiberlain, Laurent Lafitte, Amira Casar, Pauline Etienne, Mathilde Ollivier, Laurent Stocker, Grégoire Leprince-Ringuet, Clément Hervieu-Léger e Sébastien Pouderoux
Produção: François Kraus e Denis Pineau-Valencienne – Fotografia: Yves Cape – Figurino: Anaïs Romand – Distribuição: Imovision
Paris, 1896. Sarah Bernhardt está no auge de uma glória que só ela mesma conseguiria definir adequadamente. Considerada a primeira estrela internacional do entretenimento (a primeira figura pública cujo rosto e nome circulavam simultaneamente em cartazes, jornais e fotografias nos cinco continentes), ela é também uma mulher radicalmente livre para os padrões da época: financeiramente independente, apaixonada sem pudor, defensora pública da causa Dreyfus (um escândalo político e antissemita ocorrido na França entre 1894 e 1906) quando isso lhe custou amizades e contratos. A Divina Sarah Bernhardt, dirigida por Guillaume Nicloux e estrelada por Sandrine Kiberlain, não tenta abraçar a vida inteira de Bernhardt em ordem cronológica. Em vez disso, percorre três períodos centrais de sua trajetória, com foco na relação avassaladora (o que os franceses chamam de amour fou) com o ator Lucien Guitry (Laurent Lafitte), pai do também ator e cineasta Sacha Guitry.
A crítica francesa foi generosa: publicações como L’Humanité destacaram Kiberlain como a atriz que finalmente encontrou “um de seus grandes papéis”, enquanto a revista Closer celebrou o filme como “ousado e cheio de personalidade”. Vencedora do César de Melhor Atriz por Uma Juíza Sem Juízo, Kiberlain constrói uma Sarah que transita com naturalidade entre a grandiosidade pública e a desintegração privada, especialmente nas cenas em que persegue, chantageia e confronta Guitry com uma intensidade que beira o ridículo e o sublime ao mesmo tempo. É exatamente essa zona de excesso controlado que define o personagem histórico, e Kiberlain a habita sem recuar.
Visualmente, o filme é um deleite. A fotografia de Yves Cape (em paleta dourada que evoca a opulência da belle époque sem artificialidade) e o figurino de Anaïs Romand criam um mundo que funciona como extensão do estado interior de Bernhardt (suntuoso por fora, febril por dentro). O roteiro de Nathalie Leuthreau acerta ao recortar momentos emblemáticos em vez de catalogar a biografia completa, permitindo ao espectador “sentir” mais do que “saber”. O filme passa também pelo acidente sofrido por Bernhardt no Theatro Lírico do Rio de Janeiro em 1905 (quando saltou de um parapeito cenógráfico sem encontrar os colchonetes de amortecimento, lesionando gravemente o joelho que seria amputado dez anos depois), num dado que confere à história um laço inesperado com o Brasil. Para os apreciadores do cinema francês de período, é uma das estreias mais elegantes do semestre.
Xica da Silva (Relaçamento Comemorativo 50 anos)
Drama Histórico / Comédia – Brasil – 16 anos
Ano original: 1976
Direção: Carlos Diegues
Roteiro: Carlos Diegues e Antonio Callado (baseado no romance Memórias do Distrito de Diamantina, de João Felício dos Santos)
Elenco: Zezé Motta, Walmor Chagas, Altair Lima e Elke Maravilha
Produção: Jarbas Barbosa e Anselmo Duarte (Terra Filmes) – Distribuição: Vitrine Filmes
Cinquenta anos após sua estreia (e 49 após ter representado o Brasil na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro), Xica da Silva volta às telas em relançamento digital restaurado, e chega como um dos eventos culturais mais significativos do calendário cinematográfico deste julho. O filme de Carlos Diegues narra a história real de Francisca da Silva de Oliveira, uma escravizada que, na segunda metade do século XVIII no Arraial do Tejuco (atual Diamantina, Minas Gerais), tornou-se a mulher mais influente do Distrito Diamantino ao despertar a paixão de João Fernandes de Oliveira (Walmor Chagas), o contratador de diamantes enviado pela Coroa Portuguesa. De companheira à dama da sociedade, Xica construiu um império pessoal de festas, teatros e extravagâncias que chegou aos ouvidos do rei de Portugal… e despertou sua ira.
Zezé Motta, hoje aos 78 anos e presente nas sessões de relançamento, entregou em 1976 uma das mais memoráveis performances do cinema brasileiro: uma Xica que é ao mesmo tempo sedutora, calculista, exuberante e profundamente humana, cujo desejo de liberdade se manifesta não apenas nas escolhas amorosas, mas na recusa sistemática em aceitar os limites que a sociedade escravocrata lhe impunha. O debate historiográfico sobre a figura real de Xica da Silva nunca se encerrou (pesquisadoras como Junia Ferreira Furtado argumentaram, com base em documentos primários, que a história foi em parte mitificada), mas o filme de Diegues opera conscientemente na chave do mito, da alegoria e da carnavalização. Em suas próprias palavras, interessa menos a exatidão documental e mais a força de uma mulher negra que, dentro de um sistema feito para apagá-la, encontrou brechas para existir em escala.
Visto meio século depois, Xica da Silva é também um documento sobre o próprio Cinema Novo brasileiro: sua estética é ao mesmo tempo popular e experimental, o humor é exuberante sem jamais ser condescendente, e a escolha de Zezé Motta como protagonista (quando mulheres negras raramente figuravam como personagens centrais do cinema nacional) foi um gesto político que o tempo só confirmou. O relançamento é uma oportunidade de ver na tela grande um dos filmes mais importantes já feitos no Brasil, restaurado e com o peso do jubileu que merece.
Diva Futura: Cicciolina e a Revolução do Desejo
Drama Histórico / Cinebiografia – Itália – 16 anos
Título Original: Diva Futura
Duração: 125 minutos
Direção: Giulia Louise Steigerwalt
Roteiro: Giulia Louise Steigerwalt e Debora Attanasio (baseado no livro Não Digam Para Minha Mãe que Sou Secretária, de Debora Attanasio)
Elenco: Pietro Castellitto (Riccardo Schicchi), Barbara Ronchi (Debora Attanasio), Denise Capezza (Moana Pozzi), Lidija Kordic (Ilona Staller / Cicciolina) e Tesa Litvan (Eva Henger)
Produção: Matteo Rovere e Michele Ottaggio (Groenlandia) – Coprodução: Rai Cinema – Distribuição no Brasil: Imovision – Estreia exclusiva: Reserva Cultural
Itália, início dos anos 1980. Riccardo Schicchi (Pietro Castellitto) é um homem de ideias grandes e ego maior ainda que, ao lado de Ilona Staller — a futura Cicciolina —, funda a agência Diva Futura e transforma a utopia hippie do amor livre num fenômeno cultural de massa: a pornografia. Surgem as “pornstars” enquanto Cicciolina (Lidija Kordic) é eleita para o Parlamento italiano com vinte mil votos, Moana Pozzi (Denise Capezza) sonha com a prefeitura de Roma e Eva Henger conquista a Europa. Mas quem narra tudo isso não é nenhuma delas: é Debora Attanasio (Barbara Ronchi), secretária e testemunha discreta da agência, cuja perspectiva de bastidor ( baseada no livro de memórias que a própria Debora escreveu anos depois) é o fio condutor da narrativa. Diva Futura, é a estreia na direção de longa-metragem da roteirista Giulia Louise Steigerwalt, e foi selecionado para competir no Festival de Veneza 2024 e agora chega ao Brasil nesta semana com estreia exclusiva na rede Reserva Cultural.
O que distingue o filme de uma cinebiografia convencional é a recusa em transformar suas protagonistas em ícones sexuais ou em vítimas passivas do sistema. Cicciolina e Moana surgem como mulheres que negociaram (com diferentes graus de autonomia e diferentes custos pessoais) sua presença dentro de um universo que prometia liberdade e entregava, na prática, uma forma sofisticada de mercantilização do corpo feminino. A crítica internacional destaca essa ambiguidade como o maior trunfo da direção: Steigerwalt não julga nem celebra, mas observa com uma distância que é ao mesmo tempo afetiva e analítica. O ponto de vista de Debora, a secretária que não é estrela mas que tudo vê, é a escolha narrativa mais inteligente do roteiro: ela permite ao espectador estar dentro e fora ao mesmo tempo.
A reconstituição da Itália dos anos 1980 e 1990 é outro ponto forte: Steigerwalt e o diretor de fotografia Vladan Radovic recriam uma era em que televisão, celebridade, pornografia e política deixaram de habitar espaços separados para alimentar o mesmo espetáculo midiático. Pietro Castellitto, filho do diretor Sergio Castellitto, entrega um Schicchi de carisma sedutor e uma vaidade que vai se fragmentando à medida que perde o controle da própria agência. Barbara Ronchi é o coração emocional do filme (sua Debora balança entre a lealdade, o afeto e a lucidez de quem observa a partir das margens). Diva Futura é cinema que incomoda com inteligência e que, justamente por isso, não é fácil de esquecermos.
