O Fim da Rua
Ficção Científica / Suspense / Aventura / Família – EUA – 12 anos
Título Original: The End of Oak Street
Duração: 100 minutos
Direção e Roteiro: David Robert Mitchell
Elenco: Anne Hathaway, Ewan McGregor, Maisy Stella, Christian Convery, Jordan Alexa Davis, P.J. Byrne, Bethany Anne Lind e Emily Kuroda
Produção: J.J. Abrams, Hannah Minghella, David Robert Mitchell e Matt Jackson (Bad Robot / Jackson Pictures) – Fotografia: Michael Gioulakis – Música: Michael Giacchino – Distribuição: Warner Bros. Pictures
O diretor de Corrente do Mal (2014) e Under the Silver Lake (2018), dois filmes que construíram uma reputação de cinema de gênero com ambições acima da média, dá um salto de escala monumental em O Fim da Rua. Produzido por J.J. Abrams pela Bad Robot, o longa é uma declaração de amor ao cinema de aventura familiar dos anos 1980 (estamos falando de Spielberg, Amblin, Gremlins, Os Goonies) atravessado por dinossauros, caos suburbano e uma crise conjugal que o roteiro usa como eixo emocional com inteligência considerável. Denise Platt (Anne Hathaway) e Greg Platt (Ewan McGregor) são um casal em fricção constante, cada um escondendo verdades do outro: ela, um desejo de independência que já não consegue conter; ele, o emprego perdido e o bico de entregador de pizza que a vergonha impediu de revelar. No meio da festa de verão de 1985 na Rua Oak, um evento cósmico inexplicável arrebata o quarteirão inteiro para um território desconhecido e a família precisa deixar suas divisões de lado para sobreviver.
A recepção da critica foi entusiasmada: o Rotten Tomatoes classificou o longa como “a maior surpresa do verão”, e os adjetivos que mais circulam nas resenhas internacionais são “delicioso” e “cheio de sangue e diversão”. Mitchell soube exatamente como usar casas, ruas e o que está escondido no fundo da cena para criar tensão, e os dinossauros (ao contrário do que o trailer pode sugerir) não são apenas ação física, mas elementos integrados à lógica dramática do que acontece com uma família sob pressão extrema. A pontuação de Michael Giacchino, orquestrando a tensão e o afeto nas sequências de ação, é outro ponto unanimemente elogiado lá fora.
Anne Hathaway é o maior ativo do filme: seu timing cômico e sua capacidade de transmitir gravidade emocional dentro do caos funcionam como âncora numa narrativa que poderia facilmente perder o controle. O ponto mais contestado nesse filme é a indecisão do roteiro sobre o que quer de fato ser (aventura familiar, thriller de sobrevivência ou drama de casal) e há a sensação de que o desfecho não está à altura da primeira hora de filme. No conjunto, porém, é o blockbuster mais divertido desta semana.
A Morte de Robin Hood
Drama / Aventura / Suspense – EUA – 18 anos
Título Original: The Death of Robin Hood
Duração: 122 minutos
Direção e Roteiro: Michael Sarnoski (baseado na balada anônima do século XVII Robin Hood’s Death)
Elenco: Hugh Jackman, Jodie Comer, Bill Skarsgård, Murray Bartlett, Noah Jupe, Faith Delaney, Alfie Lawless, Elijah Ungvary, Tabitha Smyth, Jade Croot e Clive Russell
Produção: Hugh Jackman, Aaron Ryder e Andrew Swett (Lyrical Media / RPC)
Distribuição: A24 (EUA) / Imagem Filmes (Brasil)
Michael Sarnoski construiu sua reputação num percurso curto e preciso: Pig (2021), com Nicolas Cage, foi uma revelação sobre luto e identidade disfarçada de thriller; Um Lugar Silencioso: Dia Um (2024) demonstrou que ele dominava também a escala de orçamentos blockbusters sem perder o olhar humanista. A Morte de Robin Hood é o passo mais ambícioso dele, e o mais divisivo. Baseado num conto anônimo do século XVII que narra os últimos dias do fora da lei mais famoso da história britânica, o filme abandona de vez a lenda do arqueiro de Sherwood que rouba dos ricos para dar aos pobres. O Robin Hood de Sarnoski (Hugh Jackman) é um homem de 1247 envelhecido, amargurado e atormentado: ele próprio admite ter roubado e matado por ganância e prazer pelo sangue, não por altruísmo. Gravemente ferido após uma batalha que julgou ser a última, é recolhido por Irmã Brigid (Jodie Comer), responsável por um convénto de cura, e é na relação entre os dois que o filme encontra seu coração, um homem que quer morrer absolvido e uma mulher que descobriu a cura justamente por causa das feridas que ele causou.
A comparação que mais circula nas resenhas é com Logan (2017), outra desconstrução de herói icônico interpretada por Hugh Jackman, com envelhecimento, culpa e mortalidade como temas centrais. A comparação é justa mas também implacável: onde Logan conseguia equilibrar a contemplação com a ação e o afeto, A Morte de Robin Hood opta por um ritmo deliberadamente lento que nem sempre é recompensado pela profundidade que promete. A crítica do site Letterboxd sintetiza o consenso: “um filme que fica na beira de algo fascinante sem nunca se comprometer totalmente. Belas imagens e Jackman totalmente comprometido, mas com a sensação constante de estar apontando para possibilidades mais interessantes do que as que efetivamente apresenta.”
Hugh Jackman está extraordinário dentro dos limites que o roteiro lhe impõe: seu Robin é um homem que aprendeu a construir mitos sobre si mesmo para sobreviver, e assisti-lo desmontar esse mito diante da Irmã Brigid é o momento mais poderoso do filme. Jodie Comer, por sua vez, entrega uma prioresa de força silenciosa que cresce a cada cena. A decisão final de Robin (contar uma “mentira heróica” à orfã que chega ao seu leito de morte) é o gesto que o roteiro reserva para sintetizar tudo o que quis dizer sobre redençao e mito. Vale a sessão pela atuação dos dois protagonistas e pela fotografia deslumbrante de Pat Scola.
Honestino
Docudrama / Histórico – Brasil – 12 anos
Duração: 85 minutos
Direção: Aurélio Michiles
Roteiro: Aurélio Michiles e André Finotti
Elenco: Bruno Gagliasso (Honestino Guimarães) – Participantes (depoimentos): familiares, amigos e companheiros de militância de Honestino Guimarães, incluindo Almino Afonso, Jorge Bodanzky, Franklin Martins e Betty Almeida
Produção: Nilson Rodrigues (Mercado Filmes)
Produção executiva: Caetano Curi
Honestino Guimarães tinha 26 anos quando foi sequestrado, em outubro de 1973, pelos agentes da ditadura militar brasileira. Presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), líder estudantil da Universidade de Brasília e um dos símbolos mais eloquentes da resistência da geração de 1968, ele foi preso cinco vezes por sua militância antes do desaparecimento definitivo. Seu corpo nunca foi encontrado. A família só recebeu um atestado de óbito em 1996 — incompleto, sem causa da morte especificada. A anistia oficial e o reconhecimento de que o Estado o assassinou sob custódia só vieram em 2013. Em 2024, a UnB entregou à família o diploma póstumo de geólogo, revertendo simbolicamente a expulsão sofrida décadas antes. Honestino, dirigido por Aurélio Michiles (que foi colega de Honestino na própria UnB), nasce, portanto, de uma dívida pessoal e histórica ao mesmo tempo.
O filme opta por uma estrutura híbrida que combina depoimentos de familiares, amigos e militantes, imagens de arquivo, cartas e poemas escritos pelo próprio Honestino, e cenas dramatizadas interpretadas por Bruno Gagliasso. Essa opção estética — não deixar Honestino congelado numa fotografia antiga, nas palavras do próprio diretor, mas torná-lo “tangível, vivo” — é o maior acerto e também o maior risco do projeto. A crítica especializada é consensual ao elogiar a integração entre os elementos documentais e ficcionais, e ao destacar que a experiência pessoal de Michiles com o espaço e com os acontecimentos confere ao longa um rigor e um respeito que evitam a hagiografia. Bruno Gagliasso, um ator que raramente é associado ao cinema de cunho político, surpreende pela entrega e pela contenação com que encarna a combatividade e a sensibilidade do personagem histórico.
Rio de Clarice
Drama / Adaptção Literária – Brasil – NÃO ENCONTRADO
Duração: 81 minutos
Direção: Maria Luiza Aboim (Feliz Aniversário), Eunice Gutman (Amor), Taciana Oliveira (Mal-estar de um Anjo), Barbara Kahane (Preciosidade) e Nicole Allgranti – direção geral – (A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais)
Roteiro: Nicole Allgranti e Teresa Montero (baseado nos contos Feliz Aniversário, Amor, Mal-estar de um Anjo, A Bela e a Fera ou A Ferida Grande Demais e Preciosidade, de Clarice Lispector)
Elenco: Letícia Spiller, Lucélia Santos, Letícia Isnard, Guida Vianna, Bia Sion, Gabrielle Farias e grande elenco.
Produção: Aboim Produções e Artes e Taboca Produções Artísticas
Produção executiva: Lilly Clark
Distribuição: Bretz Filmes
Clarice Lispector faria 106 anos em 10 de dezembro de 2026. Rio de Clarice chegou aos cinemas em agosto como uma homenagem antecipada e como um dos projetos de adaptação literária mais singulares do cinema brasileiro recente. O longa é um filme coletivo: cinco diretoras, cinco contos, cinco versões do universo clariceano filmadas em Teresópolis e conectadas por uma arquitetura temática que percorre relações familiares, desejo, solidão, violência e epifanias — o território que Clarice habitou como nenhum outro escritor brasileiro. A direção geral é de Nicole Allgranti, sobrinha-neta da escritora; o roteiro é assinado por ela em parceria com Teresa Montero, biógrafa e uma das maiores pesquisadoras da vida e obra de Lispector.
Cada segmento tem uma lógica própria: Feliz Aniversário (Maria Luiza Aboim) acompanha a tensa comemoração dos 89 anos de Dona Anita, onde o afeto familiar é corroído por ressentimentos silenciosos; Amor (Eunice Gutman) traz uma mulher que, ao perder o celular numa rodoviária após um imprevisto, é forçada a experienciar o mundo sem a mediação tecnológica; Mal-estar de um Anjo (Taciana Oliveira) explora o estranhamento entre uma mãe e uma filha; A Bela e a Fera (Nicole Allgranti) mergulha no desejo e em suas ambivalências; e Preciosidade (Barbara Kahane) representa, de acordo com a própria diretora, “o doloroso momento em que a ilusão da infância é subsótituída pela bruta realidade”.
O maior desafio declarado pelas realizadoras é também o maior mérito do projeto: traduzir para o cinema a densidade psicológica e as epifanias do cotidiano que definem a prosa de Clarice Lispector — uma escrita que é essencialmente interior e que resiste à linearidade narrativa. A estrutura fragmentada em episódios independentes é a escolha mais honesta diante desse desafio. Para os leitores de Clarice, é uma celebração; para quem ainda a desconhece, pode ser a melhor porta de entrada que o cinema já ofereceu para essa obra.
Patrulha Canina: Uma Aventura Dino
Animação / Aventura / Família – EUA / Canada – Livre
Título Original: PAW Patrol: The Dino Movie
Duração: 88 minutos
Direção: Cal Brunker
Roteiro: Cal Brunker e Bob Barlen
Elenco (vozes originais): Rain Janjua, Carter Young, Mckenna Grace, Marsai Martin, Ron Pardo, Kim Kardashian e Ken Jeong
Produção: Spin Master Entertainment – Distribuição: Paramount Pictures
E quem disse que esta semana não temos algo exclusivamente voltado para os pequenos? Este é o terceiro longa-metragem baseado na fenômeno de animação canadense que se tornou uma das franquias infantis mais lucrativas do planeta, Patrulha Canina: Uma Aventura Dino mantém a fórmula que consagrou os filmes anteriores e adiciona o elemento que o título deixa claro: dinossauros. O navio da Patrulha é arrastado por uma tempestade violenta até uma ilha remota e desconhecida, onde os filhotes conhecem Rex, um jovem dinossauro que domina o território e pode ser o aliado que falta para enfrentar as traquinagens renovadas do vilão Humdinger. A trama segue com precisão os pilares que a franquia estabeleceu: trabalho em equipe, coração no lugar certo, humor fácil para os menores e algumas referências mais sofísticadas para os acompanhantes adultos.
Cal Brunker, diretor do segundo filme da série, retorna ao comando e mantém uma consistência visual e narrativa que seu “publiquinho” fiel tanto aprecia. A adição do elemento pré-histórico é bem-vinda como variação temática e permite sequências de ação mais dinâmicas do que os longas anteriores. Para o público infantil, é um programa certo.
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