Os filmes no cinema hoje estão com estreias que vão do terror com uma nova versão de “Sobrenatural: Agora entre Nós” até o documentário que aborda a fé católica em “Sagrado Coração, Seu Reino não Terá Fim”, e o novo filme do genail Gus Van Sant que vai chegar num número limitado de salas. Fique atento para não perder as datas!
Sobrenatural: Agora Entre Nós
Terror Sobrenatural – EUA / Austrália – 14 anos
Título Original: Insidious: Out of the Further
Duração: 106 minutos
Direção e Roteiro: Jacob Chase (roteiro em parceria com David Leslie Johnson-McGoldrick; história de David Leslie Johnson-McGoldrick e Jacob Chase; personagens criados por Leigh Whannell)
Elenco: Amelia Eve, Brandon Perea, Lin Shaye, Maisie Richardson-Sellers, Sam Spruell e Island Austin
Produção: Jason Blum, Oren Peli, James Wan e Leigh Whannell (Blumhouse Productions) – Produtores executivos: Steven Schneider, Ryan Turek e Brian Kavanaugh-Jones
Dezesseis anos após James Wan e Leigh Whannell inaugurarem o universo de Sobrenatural com aquele primeiro filme de 2010 (que redefiniria o terror de assassombrações na década), a franquia chega ao seu sexto capítulo com um novo elenco, um novo diretor e uma premissa que é ao mesmo tempo familiar e renovada. Sobrenatural: Agora Entre Nós apresenta Gemma (Amelia Eve), uma jovem mãe que se instala com a filha na casa onde cresceu e descobre que possui a capacidade de viajar voluntariamente para o Além (a dimensão purgatorial central do universo da série). O problema: ela não apenas viaja, mas também traz de volta o que vive lá. Quando as criaturas do Além percebem esse poder, o mundo dos vivos se torna seu novo território. O retorno da icônica médium Elise Rainier (brilhantemente interpretada por Lin Shaye no primeiro filme) é um dos momentos mais aguardados pelos fãs históricos da série.
Jacob Chase (responsável pelo terror infantil Vem Brincar, 2020) conduz o filme com uma competência sólida dentro dos limites do gênero: os sustos são construídos com paciência, os espaços domésticos são explorados como extensão do perigo e o ritmo alterna bem entre tensão e alívio. A inovação mais interessante é a inversão do dispositivo central da franquia: em vez de proteger alguém que viajou para o Além, a protagonista precisa impedir que o Além invada o mundo real, o que confere à ameaça uma imediaticidade que os filmes anteriores não tinham. A crítica especializada aponta como pontos negativos alguns diálogos excessivamente explicativos sobre a mitologia e um roteiro que, nos trinta minutos finais, apoia-se demais em clichês do gênero em detrimento da tensão.
Amelia Eve é unanimemente elogiada pela construção gradual e realista da deterioração psicológica de Gemma. Brandon Perea fornece um contraponto solidário e crível. O filme encerra com uma cena pós-crédito que deixa a porta aberta para novas continuações (a depender, evidentemente, da bilheteria). Para os fãs da franquia, é uma entrada digna e suficientemente aterrorizante; para o público geral, um terror competente que não exige familiaridade com os filmes anteriores.
Refém por um Fio
Suspense / Drama / Baseado em fatos reais – EUA – 16 anos
Título Original: Dead Man’s Wire
Duração: 106 minutos
Direção: Gus Van Sant
Roteiro: Austin Kolodney (baseado em pesquisa de Alan Berry e Mark Enochs, autores do documentário Dead Man’s Line, 2018)
Elenco: Bill Skarsgård, Dacre Montgomery, Al Pacino, Colman Domingo, Myha’la, Cary Elwes, Kelly Lynch e Jordan Claire Robbins
Produção: Cassian Elwes, Joel David Moore, Tom Culliver, Veronica Radaelli, Sam Pressman, Mark Amin e Remi Alfallah (Elevated Films / Pressman Film / District 9 Productions / Sobini Films / RNA Pictures / Pinstripes) – Fotografia: Arnaud Potier – Montagem: Saar Klein – Música: Danny Elfman – Estreia internacional: Mostra Fora de Competição de Veneza, setembro de 2025 – Distribuição no Brasil: Pandora Filmes
Sete anos separam Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot (2018) de Refém por um Fio. No intervalo, Gus Van Sant, o cineasta de Gênio Indomável (1997), Elefante (2003) e Milk: A Voz da Igualdade (2009), ficou longe do cinema de longa-metragem. Seu retorno se dá por uma história real quase inacreditável: em 8 de fevereiro de 1977, em Indinapólis, o incorporador imobiliário Tony Kiritsis entrou no escritório da Meridian Mortgage Company, amarrou um fio de espingarda ao pescoço do executivo Richard Hall (Dacre Montgomery) e conduziu o refém pelas ruas da cidade. O dispositivo (o tal do fio do título) tornava qualquer intervenção policial imediatamente fatal para Hall: se Tony caísse, o gatilho dispararia. O que se seguiu foi um cerco de 63 horas amplamente televisionado, transmitido ao vivo para o país inteiro, que culminou num desfecho que o roteiro preserva com sabedoria narrativa. Tony exigia 5 milhões de dólares e, sobretudo, um pedido público de desculpas da empresa que, segundo ele, havia “arruinado” sua vida.
Van Sant foi atraído pela história ao ler o roteiro de Austin Kolodney, que trazia embutidos links para as gravações reais das chamadas de emergência. Ouvindo Tony falar (acelerado, incoerente, dono de um humor obscuro e de uma intensidade que o próprio diretor comparou a “Scorsese num surto de cocaína”) Van Sant viu imediatamente um personagem. Bill Skarsgård abraça essa descrição com compromisso total: sua leitura de Tony Kiritsis é visceral e tecnicamente precisa, comunicando a instabilidade emocional do personagem sem nunca transformar a fragilidade em caricatura. O problema que a crítica aponta com maior unanimidade é que o roteiro não dá ao espectador muito mais do que essa instabilidade: Tony é denso, repetitivo e deliberadamente insuportável, o que torna difícil criar qualquer vínculo com ele ao longo das quase duas horas. Dacre Montgomery surpreende com uma maturidade contída como Hall; Al Pacino e Colman Domingo têm presenças pontuais mas marcantes.
A trilha sonora de Danny Elfman (pontuada pelo soul e o funk dos anos 1970 como Love To Love You Baby de Donna Summer e The Revolution Will Not Be Televised de Gil Scott-Heron) é um dos elementos mais acertados do filme, ancorando o clima da época sem didatismo. A crítica divide-se entre quem enxerga em Refém por um Fio um thriller intenso com uma das melhores atuações do ano e quem aponta o ritmo irregular e o protagonista excessivamente árido como barreiras à immersão. O consenso é que a premissa real é mais extraordinária do que qualquer ficção e que Van Sant, ao menos, teve a sabedoria de não competir com ela.
Amigas Sem Filtro
Comédia – EUA – 16 anos
Título Original: Spa Weekend
Direção: Jon Lucas e Scott Moore
Roteiro: Jon Lucas e Scott Moore
Elenco: Leslie Mann, Isla Fisher, Michelle Buteau, Anna Faris, Adam Demos, Yasmin Kassim, Peter Thurnwald e Stephen Hunter
Produção: Spaw Productions – Black Bear Production
Jon Lucas e Scott Moore são os roteiristas e diretores de Se Beber, Não Case (2009) e Perfeita é a Mãe (2016), duas comédias que fizeram bilheterias expressivas ao transformar situações cotidianas em sequências de caos improvável. Amigas Sem Filtro segue a mesma equação. Jane (Leslie Mann), Coco (Michelle Buteau) e Sophie (Anna Faris) são três amigas de infância que planejam alguns dias de paz num spa de luxúrio em Palm Springs, uma pausa da rotina, dos filhos, das carreiras, das responsabilidades. A chegada não convidada de Mel (Isla Fisher), a quarta amiga, é o detonador habitual: ela é descontrolada, impulsiva e incapaz de deixar qualquer coisa em paz. O que deveria ser descanso vira caos, e é nesse caos que o filme vive.
A crítica especializada aponta com unanimidade que o filme brilha mais quando entrega a cena para Isla Fisher e Leslie Mann. Fisher (que raramente ocupa o papel de protagonista nesse tipo de produção) rouba cada cena com timing cômico impecável e uma expressividade corporal que eleva qualquer diálogo, por mais simples que seja. Mann equilibra a dinâmica ao construir uma personagem que funciona como âncora emocional do grupo: é ela quem carrega os momentos de humor ácido e de afeto genuino, impedindo que o tom derrape no absurdo puro. Michelle Buteau e Anna Faris completam o quarteto com eficiência e carisma, garantindo bons momentos ao longo da trama.
Lucas e Moore não pretendem reinventar a comédia feminina, e o filme é honesto sobre isso. O ritmo é acelerado, as situações são previsíveis mas executadas com energia, e o resultado final é descrito pela própria crítica como “divertido do início ao fim” e “acima da média do gênero”. Para quem busca entretenimento descompromissado com um quarteto de atrizes em boa forma, é uma aposta segura nesta semana.
Anistia 79
Documentário Histórico – Brasil – 16 anos
Duração: 105 minutos
Direção: Anita Leandro
Roteiro: Anita Leandro e Alice de Andrade
Participantes: Hamilton Lopes dos Santos, Luiz Eduardo Greenhalgh, Heloísa Greco, Branca Moreira Alves, Denise Crispim, Jean-Marc von der Weid, Dirceu Greco Monteiro, José Pedro da Silva, Marijane Lisboa e Mariana Conceição Leal
Produção: Maria Flor Brazil e Alice de Andrade (Montanha Russa Cinematográfica e Banda Filmes) – Produção executiva: Maria Flor Brazil – Fotografia: Bené Machado – Montagem: Anita Leandro e Isabel de Castro – Som: Glaydson Mendes – Prêmios: Melhor Filme (Mostra Olhos Livres / Mostra Tiradentes), Prêmio do Júri Popular (Mostra Tiradentes), Prêmio de Apoio à Distribuição (FIDMarseille) – Distribuição: Embaúba Filmes
Em junho de 1979, exilados políticos brasileiros se reuniram em Roma para a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil. Foi o maior encontro da esquerda brasileira fora do país. Lá, vítimas da ditadura militar depuseram perante representantes de governos e organismos internacionais: narraram prisões, torturas, assassinatos, desaparecimentos. Algum íntimo dos acontecimentos filmou tudo isso em 16mm. As filmagens ficaram guardadas num porão em Paris por quase meio século. Anistia 79, quarto longa da diretora Anita Leandro, recupera e restaura esse material — e faz algo mais perturbador do que simplesmente mostrá-lo: convoca os próprios participantes, hoje já idosos, para assistir às imagens. Mais do que um arquivo, o filme é um espelho: o reencontro de cada um com seu eu de meio século atrás, com os companheiros que sobreviveram, com os que não sobreviveram. A emoção que emana dessas cenas de reconhecimento é o verdadeiro coração do documentário.
Anita Leandro é também professora de cinema da UFRJ e realizadora de Retratos de Identificação (2014), o que a ajuda na construção impecável desse relato sobre anistia. Nas suas próprias palavras, seu objetivo é registrar “a emoção de pessoas que viveram esse processo diante das imagens onde elas aparecem”. Essa escolha é o maior mérito e o maior limite da obra. Algumas críticas (do site Plano Crítico, por exemplo) apontam que o documentário se fecha bastante no universo íntimo dos anistiados e poderia ter oferecido uma perspectiva mais abrangente do Brasil daquele período; já para a crítica do “Cinema à Brasileira”, é exatamente essa recusa ao panorama que confere ao filme sua força, a história contada de dentro, pelos que a viveram, é mais verdadeira do que qualquer enquadramento sociológico externo poderia prover.
A cena que abre o documentário (Denise Crispim pedindo a outra pessoa que leia seu testemunho perante a conferência, incapaz de fazê-lo sozinha, descrevendo as torturas sofridas grávida e o assassinato do marido, Eduardo Leite, o Bacuri) estabelece desde o início o registro emocional da obra. “Anistia 79” chega aos cinemas no mês em que a Lei da Anistia completa 47 anos, durante um período em que a discussão sobre memória e justiça de transição volta ao centro do debate público brasileiro. Uma obra que não precisa de retórica para ser urgente.
Sagrado Coração: Seu Reino Não Terá Fim
Docudrama / Religioso – França – 12 anos
Título Original: Sacré Cœur – Son Règne n’a Pas de Fin
Duração: 95 minutos
Direção: Sabrina Gunnell e Steven J. Gunnell
Roteiro: Sabrina Gunnell e Steven J. Gunnell
Elenco: Grégory Dutoit, Julie Budria, Abbé Louis Bardon, Marcel Charlon, Clémentine Beauvais, Pe. Joël Guibert, Pe. Étienne Kern, Maximilien Ambroselli, Pe. Olivier Barnay, Pe. Edouard Marot, Vinz Le Mariachi e Zoé Müller
Produção: Krea Film-Makers Production – Distribuição original: Saje Distribution – Consultoria editorial: Pe. Étienne Kern – Formato: 4K / Dolby Digital 5.1 / Dublado em português – Distribuição no Brasil: Kolbe Arte – Pré-estreias com salas lotadas em diversas cidades do país
Há 350 anos, na cidade de Paray-le-Monial, na França, a freira visitandina Margarida Maria Alacoque narrou ter recebido aparições de Jesus Cristo, nas quais ele revelou seu Coração como símbolo de amor incondicional pela humanidade. Essas revelações (que enfrentaram resistência e descrédito dentro da própria Igreja Catόlica por décadas antes de serem reconhecidas) deram origem a uma das devoções mais difundidas do catolicismo mundial: a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Sagrado Coração: Seu Reino Não Terá Fim parte desse marco histórico para construir uma obra que combina reconstituição dramática com depoimentos contemporâneos de fieis, teólogos e sacerdotes que vivenciaram transformações pessoais atribuídas à devoção.
Dirigido pelo casal francês Sabrina e Steven J. Gunnell (os fundadores em 2012 da produtora Krea Film-Makers Production, voltada exclusivamente para obras de conteúdo cristão), o filme é o trabalho de maior envergadura da dupla até agora, sucedendo uma filmografia que inclui a trilogia Eternam, referência internacional no segmento de cinema católico. A abordagem híbrida do docudrama (que alterna sequências históricas reconstituídas com registros contemporâneos) segue a linguagem já empregada com sucesso em outras produções do gênero distribuídas no Brasil, como Bernadette de Lourdes e Karol: O Papa, O Homem. A distribuidora nacional, Kolbe Arte, reportou pré-estreias com salas esgotadas, sinalizando um público cativo e mobilizado que costuma garantir sólida presença de bilheteria a esse tipo de lançamento nos primeiros fins de semana.
Para o público católico, a chegada do filme aos cinemas brasileiros em agosto de 2026 tem uma ressonância adicional: o ano marca os 350 anos exatos das primeiras aparições relatadas por Santa Margarida Maria, e o título chega embalado por uma mobilização prévia de paróquias, grupos de oração e movimentos católicos que têm divulgado o filme como evento de fé. Para o espectador geral interessado em história religiosa e na trajetória de uma devocão que molda a espiritualidade de milhões, é uma produção que cumpre com solidez seu propósito de documentar e celebrar essa herança.
