Os filmes no cinema hoje. (nesta semana de 22 de outubro) contam com dois lançamentos de maior calibre para os apreciadores de cinema adulto. Aaron Sorkin retorna às telas com “O Outro Lado das Redes”, obra complementar a A Rede Social (2010) que narra a saga da denunciante Frances Haugen contra o Facebook, com Jeremy Strong num papel que já gera debates sobre uma possível indicação ao Oscar. E o DCU de James Gunn aporta com seu primeiro filme de terror: “Cara-de-Barro”, dirigido por James Watkins e roteirizado por Mike Flanagan, que transforma o clássico vilão de Gotham num “body horror” que recusa encaixar-se na fórmula convencional a que estamos tão familiarizados. Para completar a semana, o nacional “Overman” celebra o filme de heroi da maneira sincera que somente Laerte poderia inventar. Vale conferir!
O Outro Lado das Redes
Drama / Thriller de Investigação – EUA – 14 anos
Título Original: The Social Reckoning
Duração: 112 minutos
Direção: Aaron Sorkin
Roteiro: Aaron Sorkin (baseado nos artigos The Facebook Files, de Jeff Horwitz, publicados no The Wall Street Journal em 2021)
Argumento: Jeff Horwitz, publicado no The Wall Street Journal em 2021, sob o nome “The Facebook Files”
Elenco: Mikey Madison (Frances Haugen), Jeremy Allen White (Jeff Horwitz), Jeremy Strong (Mark Zuckerberg), Betty Gilpin, Wunmi Mosaku, Billy Magnussen, Bill Burr, Portia Doubleday, Patrick Fischler e Sierra Capri
Produção: Columbia Pictures / Alcon Entertainment / Escape Artists

Em 2021, a ex-gestora de produto do Facebook Frances Haugen vazou para o The Wall Street Journal uma seleção de documentos internos confidenciais que revelavam, com precisão demolidora, o que a empresa sabia e ocultava sobre os efeitos de suas plataformas na saúde mental de adolescentes, na disseminação de desinformação e na radicalização política ao redor do mundo. As reportagens resultantes, publicadas sob o título coletivo The Facebook Files, foram um dos marcos jornalísticos da década. O Outro Lado das Redes acompanha o processo que levou ao vazamento: a relação entre Frances (Mikey Madison) e o repórter investigativo Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), os riscos enfrentados por ambos e o caminho que transformou documentos internos numa crise institucional sem precedentes para o Meta.
A comparação com A Rede Social (2010) é inevitável e, ao mesmo tempo, uma armadilha. São obras radicalmente diferentes em tom e intenção. David Fincher fez um drama de ambição e traição pessoal; Sorkin, agora na cadeira de diretor, faz um thriller de investigação jornalística mais próximo da linguagem de Spotlight ou Todos os Homens do Presidente. A divisão da crítica especializada é clara: quem compara com o filme de Fincher sai frustrado; quem aceita os termos do que Sorkin está propondo encontra um drama de investigação eficiente, politicamente urgente e excepcionalmente bem escrito. O consenso aponta, com razão, que Sorkin como roteirista supera consistentemente Sorkin como diretor: há sequências filmadas com uma apatia visual que contrasta com a vitalidade dos próprios diálogos.
Mikey Madison, vinda do triunfo em Anora (2024), entrega uma Frances de arrogância intelectual e inadequação social que é ao mesmo tempo simpática e difícil de amar. A crítica aponta seu desempenho como a revelação mais consistente do filme. Jeremy Strong interpreta Mark Zuckerberg pela segunda vez num semestre que já incluiu O Candidato no streaming, construindo um CEO de frieza calculada e autoconhecimento perturbador. Jeremy Allen White funciona como âncora narrativa: seu Horwitz é o leigo que traduz a linguagem técnica de Frances para o espectador, e a química entre os dois sustenta a estrutura episódica do thriller. Exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo antes da estreia comercial, O Outro Lado das Redes é um filme que o Brasil de 2026 precisa discutir.
Cara-de-Barro
Suspense – EUA / Reino Unido – 18 anos
Título Original: Clayface
Duração: 108 minutos
Direção: James Watkins
Roteiro: Mike Flanagan e Hossein Amini (baseado no personagem Clayface da DC Comics)
Elenco: Tom Rhys Harries (Matt Hagen / Cara-de-Barro), Naomi Ackie, Max Minghella, Eddie Marsan, David Dencik, Ruby Sear, Joshua James, Wil Coban, Nancy Carroll, Joana Ribeiro e Sam Hazeldine
Produção: James Gunn, Matt Reeves, Peter Safran e Lynn Harris (DC Studios / Warner Bros. Pictures)

James Gunn descreveu Cara-de-Barro como uma versão diferente de A Substância. É uma comparação que diz muito sobre o que este terceiro filme do novo DCU pretende ser: não um longa de super-heróis convencional, mas um filme de terror corporal que usa o universo de Gotham como cenário e a mitologia de um vilão como ponto de partida para uma história sobre perda de identidade, ambição e a violência que a vaidade gera nos outros. Matt Hagen (Tom Rhys Harries) é um ator em ascensão em Hollywood cujo rosto é horrivelmente desfigurado por um gângster de Gotham (David Dencik) depois de um envolvimento com sua parceira. Abandonado por sua equipe e destruído na carreira, Matt submete-se a um tratamento experimental de ponta que o devolve à aparência original. O efeito colateral é que seu corpo agora é argila viva: ele pode assumir qualquer forma, qualquer rosto, e sua descida ao crime começa no momento em que percebe o que isso significa.
O roteiro de Mike Flanagan e Hossein Amini é o maior ativo do filme. Flanagan, criador de séries como A Maldição da Resident Hill e Missa da Meia-Noite, traz para o formato de longa a mesma habilidade de construir personagens moralmente ambíguos cujas escolhas destrutivas emergem de dor genuína. Matt Hagen não é uma vítima inocente: é um homem que fez escolhas erradas antes do ataque, e o roteiro recusa-se a absolvê-lo enquanto também recusa-se a simplificá-lo como vilão puro. A crítica especializada aponta essa ambiguidade como o traço mais interessante da obra. James Watkins, diretor de Não Fale o Mal (2024), constrói uma atmosfera de opressão crescente com referências declaradas a David Cronenberg (A Mosca) e ao primeiro Sam Raimi: um terror que vive no corpo antes de habitar os cenários.
Tom Rhys Harries sustenta o protagonismo com uma performance que a crítica geralmente tem considerado como a revelação do filme: ele comunica a progressão de galã seguro a monstro psicológico sem recorrer a truques óbvios. Naomi Ackie e Eddie Marsan oferecem ancoragem emocional numa narrativa que poderia derivar para o excesso. A produção tomou a decisão consciente de não amarrar o filme ao universo do Batman de Matt Reeves, o que libera a história de obrigações de continuidade e permite que o filme exista por conta própria. Para o público de terror, é uma das surpresas mais sólidas do ano. Para os fãs de DC, é um sinal de que o novo DCU pode surpreender quando para de imitar a concorrência.
Overman
Comédia / Sátira / Super-herói – Brasil – 16 anos
Duração: 82 minutos
Direção: Tomás Portella
Roteiro: Arnaldo Branco, Leandro Soares e Tomás Portella (baseado na obra Overman, de Laerte Coutinho, criada em 1998 e publicada na Folha de S.Paulo)
Elenco: Caco Ciocler (Overman), Karina Ramil (Pâmela, a Mulher-Cachorro), Otávio Müller (Governador), Victor Lamoglia (Ésquilo), Marina Provenzzano (Pane), Maria Lucas (Poline Pilsen), Caio Riscado (Maníaco Flatulento), Isabele Riccart (Alexandra) e Raphael Logam (participação especial)
Produção: Iafa Britz (Migdal Filmes) – Coprodução: Star Original Productions, FSA e RioFilme

Waly Salomão é um dos poetas mais singulares e influentes da cultura brasileira do século XX. Nascido na Bahia em 1943 e falecido no Rio de Janeiro em 2003, ele construiu uma obra que recusa classificações: poeta concreto e tropicalista, letrista de parceiras memoráveis com Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, performer, colunista e uma das personalidades mais eletrizantes da efervescência cultural dos anos 1960 e 1970. Seu livro Me Segura qu’eu Vou Dar um Troço (1972), escrito durante seu período de prisão política, é um dos objetos literários mais originais produzidos no Brasil. Overman é um documentário que propõe um resgate dessa trajetória ética, estética e afetiva que o cinema brasileiro ainda não havia realizado com a profundidade que o tema exige.
O título evoca o conceito nietzschiano que Waly incorporou ao seu pensamento e à sua persona pública: a ideia do indivíduo que supera os limites impostos pela convenção e cria seus próprios valores. Essa postura atravessou cada escolha artística e pessoal de Waly Salomão, de suas letras à sua maneira de habitar o corpo, a cidade e as relações. O documentário promete reunir depoimentos de artistas, poetas, músicos e intelectuais que conviveram com ele, imagens de arquivo raras e um mergulho na obra que possa torná-la acessível a gerações que cresceram após sua morte. As informações técnicas completas do filme não estavam disponíveis nas fontes consultadas até o fechamento desta edição, mas o lançamento em circuito nacional é confirmado para esta semana.
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