filmes em cartaz nos cinemas

Filmes em Cartaz nos Cinemas – Destaques de 14 a 20 de maio de 2026

Divirta-se Cinema

O Rei da Internet

Cinebiografia / Drama / Comédia – Brasil – 18 anos

Direção: Fabrício Bittar

Roteiro: Fabrício Bittar e Vinícius Perez

Elenco: João Guilherme Ávila, Marcelo Serrado, Emílio de Mello, Kaik Pereira, Adriano Garib, Caio Horowicz, Miguel Nader, Enrico Cardoso, Clarissa Müller, Bia Seidl, Débora Ozório, André Ramiro e Eri Johnson

Produção: Clube Filmes e Telecine, em coprodução com a Vitrine Filmes

Distribuição: Manequim Filmes e Vitrine Filmes

Iniciando com uma cena de prisão (que já anuncia o destino do protagonista), O Rei da Internet aposta na transparência narrativa para construir seu apelo: sabemos desde o início que Daniel Nascimento (João Guilherme) cairá. O prazer do filme está em acompanhar a escalada. Baseado na história real do adolescente que, antes de completar 17 anos, se tornou um dos maiores hackers do Brasil — movimentando milhões de reais em esquemas cibernéticos, vivendo uma vida de ostentação regada a carros, festas e influência — o longa de Fabrício Bittar adota uma linguagem audiovisual que remete diretamente ao período retratado: cortes rápidos, trilha sonora pulsante, uma estética que mistura clipe de MTV com energia de besteirol adolescente. É o Brasil do Windows XP, do bate-papo do UOL, do Orkut e do Counter-Strike — e o filme entende perfeitamente o apelo nostálgico desse universo.

A estratégia de quebrar constantemente a quarta parede (Daniel conversa com o espectador, ironiza a própria história e transforma sua trajetória em espetáculo) funciona como ferramenta de aproximação com a mentalidade juvenil impulsiva do personagem. A comparação com o estilo de Deadpool é inevitável, mas aqui o recurso serve a um objetivo diferente: humanizar um protagonista que, na prática, explora brechas legais e vítimas reais. João Guilherme consegue sustentar o protagonismo ao equilibrar o carisma necessário para fisgar a plateia com a arrogância crescente de quem descobriu ser capaz de qualquer coisa, uma atuação que amadurece conforme Daniel acumula poder. Marcelo Serrado, como Fábio, o mentor calculista da quadrilha, oferece o contraponto de quem pensa em segundos planos quando o jovem só pensa no presente.

As fragilidades do filme concentram-se no excesso: os 135 minutos de duração acumulam festas, sexo, drogas e ostentação numa quantidade que, após um certo ponto, torna a narrativa repetitiva. O desenvolvimento emocional de Daniel perde espaço para o espetáculo visual, e o impacto das consequências sobre suas vítimas é quase invisível dentro do enquadramento da história. Mas o filme tem honestidade suficiente para não transformar Daniel em herói nem condená-lo como vilão — prefere acompanhar sua trajetória pela ótica de um adolescente intoxicado por dinheiro e validação. Lançado com estreia no Miami Film Festival, O Rei da Internet é entretenimento pop eficiente e um retrato certeiro de uma geração que descobriu a internet sem limites.

As fragilidades do filme concentram-se no excesso: os 135 minutos de duração acumulam festas, sexo, drogas e ostentação numa quantidade que, após um certo ponto, torna a narrativa repetitiva. O desenvolvimento emocional de Daniel perde espaço para o espetáculo visual, e o impacto das consequências sobre suas vítimas é quase invisível dentro do enquadramento da história. Mas o filme tem honestidade suficiente para não transformar Daniel em herói nem condená-lo como vilão — prefere acompanhar sua trajetória pela ótica de um adolescente intoxicado por dinheiro e validação. Lançado com estreia no Miami Film Festival, O Rei da Internet é entretenimento pop eficiente e um retrato certeiro de uma geração que descobriu a internet sem limites.

FANON

Drama – França/Luxemburgo/Canadá – 16 anos

Direção e Roteiro: Jean-Claude Barny

Roteiro: Jean-Claude Barny e Philippe Bernard

Elenco: Alexandre Bouyer, Déborah François, Stanislas Merhar, Mehdi Senoussi e Olivier Gourmet

Há nomes que a história consagrou nos livros acadêmicos mas que o cinema raramente ousou abordar. Frantz Fanon é um deles. Psiquiatra nascido na Martinica em 1925, autor de Os Condenados da Terra e de Pele Negra, Máscaras Brancas, Fanon tornou-se uma das vozes mais influentes do pensamento anticolonial do século XX — referência obrigatória para ativistas, filósofos e movimentos de libertação em todo o mundo. Jean-Claude Barny, diretor francês com raízes em Guadalupe e Trinidad e Tobago, enfrenta o desafio de trazer esse pensador às telas em Fanon, cinebiografia que acompanha os anos cruciais de 1953 a 1956, quando Fanon chefiou a ala psiquiátrica do Hospital de Blida-Joinville, na Argélia colonial.

A chegada de Fanon à Argélia já condensa em imagem o tema central do filme: um homem negro, médico formado, elegante e seguro de si, que ao desembarcar no aeroporto é imediatamente confundido com o carregador de malas de sua esposa branca, Josie (Déborah François). O episódio, apresentado logo no início, resume o paradoxo que atravessa toda a narrativa — a lacuna intransponível entre a identidade que o sujeito colonizado constrói para si e aquela que o olhar colonial lhe impõe. É esse o terreno em que Fanon opera intelectualmente, e é esse o conflito que o filme se esforça por dramatizar.

No hospital, suas práticas humanistas entram em rota de colisão com a institucionalidade colonial que permeia o tratamento dispensado aos pacientes argelinos. Enquanto Fanon aposta na escuta, no respeito à cultura dos internados e em métodos que reconhecem a humanidade dos que o sistema preferia apagar, seus colegas e a administração enxergam na sua conduta uma ameaça à ordem estabelecida. A tensão se aprofunda quando a guerra pela independência da Argélia avança, e Fanon começa a ser recrutado pelo FLN — a Frente de Libertação Nacional — para contribuir com a resistência além dos muros do hospital.

Barny opta deliberadamente por um estilo mais acessível e comercialmente viável do que as abordagens autorais com as quais outros cineastas poderiam ter tratado o mesmo material. A fotografia é polida, o ritmo é dinâmico e a construção dramática aposta na identificação emocional com o protagonista antes de qualquer aprofundamento teórico. Essa escolha tem uma consequência dupla: por um lado, torna o filme mais palatável para um público amplo que talvez nunca tenha ouvido falar de Fanon — e aí está sua maior virtude, a de funcionar como porta de entrada para um pensamento que merece muito mais leitores do que tem. Por outro, sacrifica a densidade filosófica que os escritos do próprio Fanon exigiriam de uma adaptação mais ambiciosa. Quem já leu Os Condenados da Terra provavelmente sentirá falta de uma interlocução mais substantiva com as ideias centrais do autor — o panafricanismo, a análise da violência como mecanismo colonial, o papel da cultura nacional na descolonização.

Alexandre Bouyer, um ator de carreira discreta até então, carrega o peso da cinebiografia com presença física e seriedade, ainda que a interpretação nem sempre alcance a complexidade interna que o personagem exige. Há momentos em que a câmera contempla o protagonista de fora quando o espectador precisaria estar dentro. Déborah François entrega uma Josie consistente, e Stanislas Merhar como o Dr. Azoulay, colega de Fanon, representa com eficiência a burocracia colonial que tenta absorver e neutralizar o que não consegue compreender.

Fanon não é o filme definitivo que a vida e o pensamento de Frantz Fanon mereciam. Mas é o filme que provavelmente alcançará o público que precisa descobri-lo.

Perto do Sol É Mais Claro

Drama – Brasil – 14 anos

Direção e Roteiro: Regis Faria

Elenco: Reginaldo Faria, Marcelo Faria, Candé Faria e Vanessa Gerbelli

Produção: Regis Faria – Distribuição: O2 Play, em parceria com a RioFilme

Há filmes que existem na fronteira tênue entre o documental e a ficção. Perto do Sol é Mais Claro, primeiro longa de ficção do diretor Regis Faria, habita essa zona com toda a coragem e o risco que ela implica. O projeto nasceu durante a pandemia, quando Regis passou a conviver com o pai, o lendário ator Reginaldo Faria — um dos maiores nomes da história do cinema e da televisão brasileira — e começou a filmá-lo em cenas cotidianas, antes mesmo de existir roteiro. O resultado final é um drama em preto e branco que acompanha Rêgi (Reginaldo Faria), um engenheiro carioca de 85 anos que enfrenta o luto pela morte da esposa e tenta ressignificar a própria existência escrevendo um livro e se abrindo para um novo amor — vivido pela atriz Vanessa Gerbelli, ex-esposa do diretor na vida real. Os filhos do personagem são interpretados pelos próprios filhos de Reginaldo, Marcelo e Candé Faria. A produção carrega uma autorreferência tão assumida que chega a provocar um estranhamento produtivo: quando realidade e ficção se confundem dessa forma, o que estamos assistindo é ao mesmo tempo uma película e uma homenagem em vida.

A fotografia em preto e branco constrói uma atmosfera melancólica e nostálgica coerente com o estado emocional do protagonista. A direção de Regis, que acumulou funções que incluem fotografia, montagem, direção de arte e som direto, imprime ao projeto um caráter artesanal e íntimo que é, ao mesmo tempo, seu maior mérito e seu maior limite. Reginaldo Faria é a razão principal para assistir ao filme: sua expressividade em cena — capaz de comunicar saudade, raiva, luto e alegria com economia de gestos — sustenta o longa mesmo quando o roteiro se dispersa. A crítica especializada aponta dois problemas centrais: o foco excessivo na figura do protagonista, que impede um desenvolvimento mais amplo dos personagens ao redor, e a dificuldade em saber quando encerrar a história.

O filme percorreu festivais como o Festival de Cinema Brasileiro de Paris e a 27ª edição do Festival do Rio, onde Reginaldo Faria recebeu o Troféu Redentor por sua trajetória artística. No Los Angeles Brazilian Film Festival, conquistou os prêmios de Melhor Ator e Melhor Trilha Sonora — este último composto pelo próprio Reginaldo. É um lançamento que interessa sobretudo a quem acompanha a história do cinema nacional e a quem se dispõe a assistir a uma despedida que não se parece com uma despedida.

Authentic Games – No Império Desconectado

Animação / Aventura / Família – Brasil – 6 anos

Direção: Bruno Murtinho

Roteiro: Bruno Murtinho, Lucas Vidal e Chico Barbosa

Elenco: Marco Túlio (Authentic), Thay Bergamim, Andrei Soares (Spok), Cauê Bueno (Cauê), Manolo Rey (Imperador), Marcelo de Souza (Cientista Chefe), Natan Lopes (Filho do Cientista Chefe) e o cachorro Shake

Produção: Rubi Produtora, Aya Produções, Authentic Games Canal e Produções, Urca Filmes, Riofilme e Prefeitura do Rio – Distribuição: Imagem Filmes

Mais de uma década depois de ligar a câmera pela primeira vez num quarto de adolescente para gravar sessões de Minecraft, Marco Túlio — o Authentic Games — chega às telas do cinema com Authentic Games – No Império Desconectado. Com mais de 20 milhões de seguidores e bilhões de visualizações acumuladas ao longo de uma carreira construída sobre a confiança de uma legião de fãs infantojuvenis, o salto para o formato cinematográfico era uma questão de tempo. A premissa é divertida e bem calibrada para o público-alvo: após anos comandando um mundo completamente offline e sem diversão, o terrível Imperador decide sequestrar Marco Túlio para levar alegria ao seu reino sombrio. O plano dá errado e a Família Craft é capturada por engano. Marco Túlio, então, assume a forma de Authentic — seu próprio avatar animado — e parte em missão de resgate.

O diretor Bruno Murtinho, que estudou cinema na UCLA e trabalhou com Fernando Meirelles antes de se consagrar como um dos diretores de videoclipe mais criativos do Brasil, entrega uma mistura competente de live-action e animação que constitui o maior trunfo técnico da produção. As sequências animadas são detalhadas e surpreendentes para uma produção nacional, com um cuidado visual que se destaca. O elenco é montado a partir de nomes já familiarizados pela audiência gamer — Andrei Soares (Spok), Cauê Bueno, Natan Lopes — o que cria uma identificação instantânea para o público que cresceu acompanhando o canal, mas que limita o alcance para espectadores não iniciados nesse universo.

A história, reconhecidamente simples, é o aspecto mais criticado pelos analistas adultos: o roteiro de Murtinho, Lucas Vidal e Chico Barbosa não aspira à profundidade narrativa dos grandes clássicos da animação familiar. Para a criançada, entretanto, funciona bem — há ritmo, humor e aventura suficientes para prender a atenção durante os 71 minutos. Um detalhe de bastidores que merece menção: toda a animação e todas as vozes foram produzidas sem o uso de inteligência artificial, uma escolha que a produção faz questão de destacar. Vale ainda saber que, após a janela nos cinemas, o filme chegará à plataforma Disney+.

Alma Negra – Do Quilombo ao Baile

Documentário / Musical – Brasil – 12 anos

Direção: Flávio Frederico

Entrevistadas: Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez e Edneia Gonçalves

Produção: BiD, Jorge Guedes, Marina Couto

Distribuição: Synapse Distribution

Alma Negra – Do Quilombo ao Baile é um documentário que investiga a trajetória da soul music e do movimento dos bailes black no Brasil, desde suas raízes nos anos 1960 até a consolidação como fenômeno cultural das periferias urbanas do país. O ponto de partida é a conexão entre as tradições quilombolas e a chegada da música negra norte-americana ao Brasil — soul, funk e rhythm and blues — que, ao ser absorvida e reinterpretada pela população negra das grandes cidades, tornou-se não apenas entretenimento, mas um espaço de afirmação de identidade, resistência e pertencimento.

Com depoimentos de figuras ligadas ao movimento negro, artistas, frequentadores dos bailes históricos e pesquisadores da área, o documentário constrói um panorama que conecta gerações e resgata memórias de uma tradição que o cinema brasileiro pouco abordou de forma sistemática. A trilha sonora pulsante, composta pelos próprios ritmos que animaram esses espaços ao longo de décadas, é um elemento central da experiência — o filme propõe que o espectador não apenas ouça sobre os bailes, mas sinta algo do que eles significaram.

Distribuído pela Synapse Distribution, Alma Negra integra uma corrente de documentários brasileiros recentes que resgatam e celebram a cultura afro-brasileira em suas múltiplas dimensões — da música e da dança às estruturas de sociabilidade que os bailes representavam em um contexto de racismo estrutural e apagamento. Um lançamento que interessa tanto ao público interessado em história e cultura quanto a quem cresceu dentro ou próximo desse universo musical.