Os filmes no cinema hoje fecham setembro com um grande destaque internacional, estamos falando de “Coração Selvagem”, com Brad Pitt num thriller de sobrevivência no Alasca que abre com críticas entusiasmadas como a melhor parceria entre o ator e o diretor David Ayer, mais de uma década depois de Corações de Ferro. Para as famílias, a nova animação da DreamWorks, “A Ilha Esquecida”, chega ao Brasil um dia antes dos EUA com 100% de aprovação da crítica, mergulhando na mitologia filipina com a dupla criadora de Gato de Botas 2. O cinema brasileiro marca presença com “Virtuosas”, estreia promissora de Cíntia Domit Bittar no terror, e o drama “Precisamos Falar”, da dupla Pedro Waddington e Rebeca Diniz.
Coração Selvagem
Thriller / Suspense / Sobrevivência – EUA – 14 anos
Título Original: Heart of the Beast
Duração: 98 minutos
Direção: David Ayer
Roteiro: Cameron Alexander
Elenco: Brad Pitt, J.K. Simmons, Anna Lambe e Uber (cão protagonista)
Produção: David Ayer, Damien Chazelle, Olivia Hamilton, Brad Pitt (Plan B Entertainment), Wild Chickens Productions, Temple Hill Entertainment e Domain Entertainment (Paramount Pictures) – Distribuição: Paramount Pictures Brasil
O roteiro de Coração Selvagem (alguém da Paramount Brasil decidiu dar a ele o mesmo nome do filme de David Lynch de 1990, mas vamos fingir que não vimos) figurou na “Black List” de 2017, a famosa lista anual dos melhores “roteiros não produzidos” de Hollywood. Levou quase uma década para chegar às telas, mas o caminho valeu: David Ayer, que havia assinado uma sequência de projetos com resultados irregulares após Corações de Ferro (2014), encontrou aqui o material que precisava para reencontrar a si mesmo como cineasta. James Belmont (Brad Pitt) é um ex-soldado das Forças Especiais aposentado que explora o Alasca em monomotor ao lado de Odin, seu cão de combate veterano. Quando James sofre um infarto enquanto pilota e o avião cai numa das regiões mais isoladas e hostis do planeta, os dois ficam presos a dezenas de quilômetros de qualquer ponto de civilização. Ferido, enfrentando uma condição cardíaca que faz cada minuto contar, James precisa fazer o caminho de volta confiar num único aliado.
O filme funciona porque a relação entre James e Odin é construída com consistência desde o início. Odin não é o cachorro leal e adorável do cinema familiar: é um veterano de guerra com seus próprios traumas e seus próprios limites, e a conexão entre os dois funciona porque compartilham uma história que o roteiro deixa emergir gradualmente, sem exposição forçada. A crítica especializada destaca que Ayer conduz a primeira parte do filme com tensão visceral e depois abre o foco para uma jornada física de beleza austera nas paisagens árticas, filmadas com honestidade brutal sem depender de efeitos digitais. Brad Pitt preparou-se durante meses para o papel, trabalhando com adestramento canino e submetendo-se a condições físicas extremas durante as gravações, chegando a estados de hipotermia que não eram simulados. Essa entrega física transparece em cada cena e é o que separa o filme de um thriller de sobrevivência convencional.
Pode-se dizer que o filme tem dois pontos fracos. Um terceiro ato com obstáculos desproporcionais ao que os personagens já enfrentaram, e algumas situações que pedem uma suspensão de descrença “maior” do que o realismo estabelecido pelo filme permite. Em outras palavras: haja areia para jogar nos nossos já maculados olhinhos. Mas o coração do longa, no sentido mais literal da expressão, é sólido demais para ser comprometido por isso. O ator canino Uber é unanimemente apontado como um dos destaques do ano, numa performance que a crítica descreve como o tipo de presença em tela que transforma qualquer espectador em um fã de cães, mesmo contando aqueles que nunca tiveram um “amigão” em casa.
A Ilha Esquecida
Animação / Aventura / Família – EUA – 10 anos
Título Original: Forgotten Island
Duração: 103 minutos
Direção e Roteiro: Joel Crawford e Januel P. Mercado
Elenco (vozes originais): H.E.R. (Jo), Liza Soberano (Raissa), Dave Franco (Raww), Jenny Slate (Batiba), Manny Jacinto (Bungi), Lea Salonga (Manananggal), Dolly de Leon, Jo Koy, Ronny Chieng, Manny Jacinto e Kevin McCann
Produção: Mark Swift (DreamWorks Animation, em parceria com Snipple Animation) – Música: Nathan Matthew David – Montagem: James Ryan – Estreia no Brasil um dia antes dos EUA – Distribuição: Universal Pictures Brasil
Joel Crawford e Januel Mercado construíram uma amizade de trinta anos e um universo criativo que resultou em Gato de Botas 2: O Último Pedido (2022), um dos filmes de animação mais elogiados da década. Em A Ilha Esquecida, eles partem de um território ainda mais pessoal: a amizade no momento em que ela é forçada a se transformar. Jo (voz de H.E.R.) e Raissa (Liza Soberano) são melhores amigas desde a infância nas Filipinas dos anos 1990, à beira de seguirem caminhos diferentes após o ensino médio. Na última noite juntas, um portal misterioso as transporta para Nakali, uma ilha fantástica habitada por criaturas da mitologia filipina. Para voltar para casa, precisarão pagar um preço que o filme revela no momento exato. O que o filme não revela com antecedência é o quanto esse preço vai exigir das duas.
O maior mérito da animação é ser o primeiro longa de um grande estúdio de Hollywood inteiramente ancorado na mitologia filipina. Isso significa ter um elenco de dublagem composto unicamente por artistas filipinos e filipina-americanas, uma escolha de autenticidade cultural que os diretores fizeram questão de deixar no longa. Lea Salonga, a lendária voz de Disney em Mulan e Aladdin, é escalada para o papel da aterrorizante Manananggal, uma criatura do folclore filipino que é descrita pelos próprios criadores como “um dos momentos mais corajosos do filme em termos de design”. A crítica especializada ficou entusiasmada numa mesma toada: os personagens são carismáticos e descolados, os diálogos têm profundidade que justifica uma segunda parte, e a narrativa sobre amizade e memória opera como ensaio em cima dos conceitos com uma delicadeza que raramente se vê no gênero. Estreia no Brasil um dia antes dos EUA. Ponto para nós, não perca.
Virtuosas
Terror / Suspense – Brasil – 16 anos
Duração: 86 minutos
Direção: Cíntia Domit Bittar
Roteiro: Cíntia Domit Bittar e Fernanda de Capua
Elenco: Bruna Linzmeyer, Maria Galant, Juliana Lourenção, Sarah Motta, Brisa Marques, Nenê Borges e Fernando Bispo, com participação especial de Gabriel Godoy
Produção: Ana Paula Mendes e Cíntia Domit Bittar (Novelo Filmes)
Coprodução: Olhar Filmes
Distribuição: Olhar Filmes e Filmes do Estação
A Novelo Filmes é uma produtora audiovisual liderada por mulheres sediada em Florianópolis. Seu primeiro longa-metragem de ficção, Virtuosas, é também a estreia de Cíntia Domit Bittar na direção de longa. O filme chegou ao circuito comercial depois de uma expressiva trajetória em festivais: premiado no “Goes to Cannes 2025”, exibido na Première Brasil do “Festival do Rio 2025” e vencedor do “Prêmio Netflix” na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Virginia Heinzel (Bruna Linzmeyer) é uma coach de perfil conservador com ambições políticas que organiza um retiro VIP exclusivo para mulheres, prometendo conduzí-las à melhor versão de si mesmas segundo os valores da “mulher virtuosa” inspirados em Provérbios 31. Três participantes são sorteadas: Lorena (Juliana Lourenção), completamente entregue ao ideal; Bárbara (Sarah Motta), com dúvidas que se esforça para suprimir; e uma terceira que começa a questionar o que exatamente está acontecendo dentro daquelas paredes. O que o filme revela depois fica sendo spoiler, é preciso não antecipar.
O terror de Virtuosas é de natureza peculiar: está menos interessado nos sustos do que nos sistemas. O roteiro, escrito por Bittar em parceria com Fernanda de Capua, usa a gramática do horror para radiografar a cultura de coaches conservadoras, o movimento de “resgate da feminilidade” e a violência que esses sistemas exercem sobre mulheres que não se encaixam no padrão prescrito. Faz isso com humor ácido, o que é uma escolha corajosa para o gênero: as cenas mais perturbadoras do filme têm também as falas mais engraçadas, e essa convivência entre o riso e o desconforto é onde o filme é mais original. Bruna Linzmeyer entrega uma Virgínia de charme calculado e controle ilusório que é o tipo de vilã cuja ameaça é mais eficaz por ser perfeitamente reconhecível: ela existe nas redes sociais, nos podcasts e nas plataformas de cursos que qualquer espectadora já cruzou.
A crítica especializada aponta algumas inconsistências narrativas no terceiro ato e um ritmo que perde o fôlego nos momentos mais expositivos. No conjunto, porém, reconhece em Virtuosas uma estreia de direção com voz própria, comprometida com o que quer dizer e ciente de como usar o gênero a seu favor. O filme será disponibilizado para a Netflix após a janela nos cinemas, com distribuição para mais de 190 países. Para o público de terror brasileiro, é a estreia da semana.
Precisamos Falar
Drama – Brasil – 14 anos
Direção: Pedro Waddington e Rebeca Diniz
Roteiro: Sérgio Goldenberg
Elenco: Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Hermila Guedes e Emílio de Mello
Produção: Conspiração Filmes, Globo Filmes, Sony Pictures
A verdade ama se esconder. A frase de divulgação do filme não seria melhor para este lançamento que fala sobre verdades e as tentativas de escondê-la. Precisamos Falar é um drama dirigido pela dupla Pedro Waddington e Rebeca Diniz que coloca quatro personagens em torno de uma mesa para enfrentar divergências éticas que nenhum deles estava preparado para discutir. O elenco reúne Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Hermila Guedes e Emílio de Mello, quatro atores de diferentes gerações e de trajetórias que cobrem teatro, cinema e televisão com consistência. A premissa caminha pelo território de filmes como O Deus do Carnaval e Quem tem Medo de Virginia Woolf?: o espaço íntimo como arena de confronto, o diálogo como campo de batalha. O que transforma a conversão em ruptura é aquilo que o filme preserva como surpresa.
A escolha de dois diretores para um único longa é não apenas formal mas conceitual: a história não tem um ponto de vista dominante, e a codireção comunica isso visualmente. Waddington e Diniz alternam perspectivas entre os personagens sem privilegiar nenhum deles sobre os demais, o que confere ao filme uma ausência de hierarquia moral que o torna mais perturbador do que um drama de julgamento convencional. Uma estreia a ser acompanhada de perto pelo público que aprecia o cinema brasileiro focado em atores, não apenas em visual e composição cênica.
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