DIA D – DISCLOSURE DAY
Suspense – EUA
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: David Koepp
Elenco: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth, Colman Domingo, Eve Hewson, Wyatt Russell
Produção: Amblin Entertainment,
Faz tempo em que não aparece aquele final de semana que nos faz pensar “eita, parece que este findi teremos um filme do Spielberg estreando!”. Sim, esse sobrenome virou sinônimo de que algo incomum estará acontecendo nos cinemas de sua cidade. Desta vez, o nobre cineasta deixa tudo ainda mais interessante ao revisitar um tema que lhe muito típico: os contatos imediatos de terceiro grau!
Poucos diretores conseguem transformar uma grande produção de ficção científica em uma experiência profundamente humana como Steven Spielberg. Em Disclosure Day, o cineasta utiliza uma premissa de alcance global para contar uma história que, acima de tudo, fala sobre pessoas, crenças e escolhas diante do desconhecido.
Embora o material promocional destaque a descoberta de que a humanidade não está sozinha no universo, o filme vai muito além desse ponto de partida. A revelação inicial serve apenas como catalisador para uma narrativa que explora questões morais, filosóficas e emocionais. O verdadeiro interesse da trama está na forma como indivíduos e sociedades reagem quando suas certezas mais profundas são colocadas em xeque.
Spielberg conduz a história com segurança admirável. Em vez de depender constantemente de efeitos visuais ou sequências grandiosas, ele aposta em momentos de silêncio e contemplação que ampliam o impacto emocional da narrativa. A trilha sonora de John Williams complementa essa abordagem com elegância, alternando entre passagens épicas e momentos de delicada introspecção.
O elenco contribui de forma decisiva para o resultado. Emily Blunt entrega uma interpretação carregada de sensibilidade, enquanto Josh O’Connor e Colin Firth formam uma parceria que acrescenta profundidade intelectual e emocional à trama. Já Colman Domingo rouba diversas cenas com sua presença marcante.
Com pouco mais de duas horas e meia de duração, o filme mantém um ritmo cuidadosamente calculado. Cada sequência parece ter um propósito dentro da construção desse universo e de suas implicações. A fotografia e os efeitos visuais ajudam a criar uma atmosfera de admiração e inquietação que acompanha o espectador até os minutos finais.
Mais do que um espetáculo de ficção científica, Disclosure Day é uma reflexão sobre humanidade, fé e responsabilidade. Seu desfecho emocional e ambicioso transforma a experiência em algo que permanece na memória muito depois do término da sessão, reforçando porque Spielberg continua sendo uma boa razão para pensarmos num bom cinema no final de semana, além dele ser um dos grandes contadores de histórias do cinema contemporâneo.
HIT PARA DOIS
Comédia / Drama / Musical – Irlanda / EUA – 16 anos
Título Original: Power Ballad
Direção: John Carney
Roteiro: John Carney e Peter McDonald
Elenco: Paul Rudd, Nick Jonas, Havana Rose Liu, Marcella Plunkett, Beth Fallon, Jack Reynor, Keith McErlean, Paul Reid e Rory Keenan
Distribuição: Diamond Films Brasil
John Carney tem uma marca inconfundível: em cada um de seus filmes — de Apenas Uma Vez (2006) a Sing Street (2016) —, a música não é tema nem pano de fundo, mas o próprio tecido emocional de que a história é feita. Hit Para Dois não abandona essa assinatura, mas a envolve em algo que o diretor nunca havia tentado com tanta clareza: uma história sobre traição, reconhecimento e o preço do talento desperdiçado. Rick Power (Paul Rudd) é um americano que, nos anos 1990, quase chegou à fama com uma promissora banda de rock. Trocou as turnês por uma vida tranquila na Irlanda ao lado da esposa Rachel (Marcella Plunkett) e da filha Aja (Beth Fallon), e hoje sobrevive cantando em casamentos. Durante um desses shows, conhece Danny (Nick Jonas), um ex-astro de boy band em declínio que ainda carrega o peso de uma carreira construída sobre outra pessoa. Os dois criam um laço genuíno numa jam session noturna e Danny, sem perceber totalmente o que está fazendo, leva uma composição de Rick ao estúdio e a transforma num hit global sem dar qualquer crédito ao autor.
O que distingue Hit Para Dois dos outros filmes de Carney é exatamente essa amargura que atravessa a história de ponta a ponta. O diretor não romantiza o sonho artístico, mas o confronta com a mesma mediocridade da indústria, com a vaidade que cega até as pessoas bem-intencionadas e com a questão incômoda de quanto um homem está disposto a perder para provar que merece ser reconhecido. Paul Rudd entrega uma das performances mais matizadas de sua carreira, equilibrando o charme de sempre com uma vulnerabilidade que o roteiro sustenta com generosidade. Nick Jonas surpreende: onde se esperava uma presença decorativa, há um personagem com camadas, capaz de oscilar entre o arrependimento genuíno e a auto justificação covarde sem jamais parecer calculado.
Após estrear no SXSW de 2026 com uma entusiasmada avaliação da crítica, o filme foi descrito por vários analistas como uma das comédias dramáticas mais charmosas e emocionalmente honestas do ano. A trilha sonora, composta especialmente para o longa, é um personagem à parte (os hits inventados têm a textura certa de músicas que deveriam ter existido). Para quem aprecia o cinema de Carney, Hit Para Dois representa um avanço dentro de sua própria obra: mais áspero, mais maduro, mas com o mesmo coração de sempre.
TRAGO SEU AMOR
Comédia / Fantasia / Romance – Brasil – 12 anos
Direção: Claudia Castro
Roteiro: Letícia Fudissaku
Elenco: Giovanna Grigio, Diego Martins, Jê Soares, João Manoel, Lorena Comparato, Luiza Rosa e Cauã Reymond
Produção: TVZero (Roberto Berliner, Leo Ribeiro e Sabrina Garcia) – Fotografia: Pedro Serrão e Breno Cunha – Distribuição: H2O Films, em parceria com RioFilme
Claudia Castro, diretora de Ela Disse, Ele Disse (2019), retorna ao cinema com Trago Seu Amor, comédia romântica de fantasia que chegou às salas após estreia na mostra Première Brasil: Geração do 27º Festival do Rio, em outubro de 2025. O roteiro de Letícia Fudissaku — sua primeira criação original para o cinema — parte de uma premissa deliciosamente absurda: Mia (Giovanna Grigio) é uma bruxa egocêntrica e bem-sucedida que oferece um serviço especial a clientes desesperados. Quem a beija provoca um feitiço que faz a última pessoa amada voltar a se apaixonar pelo cliente. O efeito colateral: quando o feitiço falha, é o próprio cliente que passa a ser obcecado por Mia. O resultado é uma legião de admiradores — os Miados — que ela precisa administrar com a ajuda do fiel amigo Ariel (Diego Martins). A confusão começa de vez quando Mia tenta ajudar Yuri (João Manoel) a reconquistar René (Jê Soares) — e descobre que a própria René é uma bruxa, o que faz o feitiço virar contra a feiticeira.
O grande trunfo do filme é a dupla central. Giovanna Grigio — revelada em Chiquititas e consolidada em Rebelde e Maníaco do Parque — entrega uma protagonista de carisma irresistível, cuja arrogância calculada vai cedendo espaço para uma vulnerabilidade genuína sem perder o timing cômico em nenhum momento. Diego Martins, como Ariel, assume o papel do amigo-parceiro-âncora com a desenvoltura de quem nasceu para a comédia de situação. A crítica especializada destaca especialmente o design de produção do filme: uma combinação de figurino, direção de arte, cores saturadas e iluminação quente que confere à produção nacional um valor visual fora do comum, digno de seriados internacionais de moda.
Trago Seu Amor chega num junho que concentra o Dia dos Namorados, o mês do orgulho LGBTQIA+ e a Copa do Mundo — e a história, que trata com naturalidade relações amorosas diversas e protagonistas negras, responde a todos esses contextos sem jamais soar didática. Para quem procura uma comédia romântica brasileira com identidade própria, bom humor e um olhar plural sobre o amor, é a escolha da semana.
O AFINADOR
Suspense / Ação / Drama / Musical – Canadá / EUA – 16 anos
Título Original: Tuner
Direção: Daniel Roher
Roteiro: Daniel Roher e Robert Ramsey
Elenco: Leo Woodall, Dustin Hoffman, Havana Rose Liu, Lior Raz, Jean Reno e Tovah Feldshuh
Produção: English Breakfast Productions / Black Bear Pictures – Distribuição: Paris Filmes
Daniel Roher ficou conhecido do grande público com Navalny (2022), o documentário sobre o opositor russo Alexei Navalny que lhe rendeu o Oscar de Melhor Documentário. O Afinador é sua estreia na ficção e ele a inicia com uma premissa de alta engrenagem: Niki White (Leo Woodall) é um jovem aprendiz de afinador de pianos em Nova York, herdeiro do talento e da melancolia de um falecido pai musicista. Treinado pelo carismático e enigmático Harry Horowitz (Dustin Hoffman), Niki possui uma condição rara: hiperacusia, uma hipersensibilidade auditiva que torna os ruídos cotidianos quase insuportáveis, forçando-o a viver permanentemente protegido por fones de ouvido. Esse mesmo dom, porém, faz dele um arrombador de cofres extraordinário — capaz de ouvir o mecanismo de fechaduras com uma precisão que nenhum equipamento tecnológico reproduz. Quando essa habilidade chega aos ouvidos errados, Niki é recrutado por uma rede criminosa e sua vida dupla começa a ameaçar tudo o que construiu — inclusive a relação nascente com Ruthie (Havana Rose Liu), uma jovem compositora.
O roteiro de Roher e Robert Ramsey não inventa a roda: o archote do talento excepcional em conflito com um mundo que quer explorá-lo é território bem mapeado do thriller de ação. O que diferencia O Afinador é a camada psicológica que sustenta a trama de ponta a ponta. A hiperacusia de Niki não é apenas um dispositivo de enredo — é a metáfora central do filme: um homem que sente demais, que não consegue filtrar o mundo ao redor e que carrega um dom que é também uma maldição. A relação entre Niki e Harry é o coração emocional da produção, construída na base de cumplicidade, humor seco e um afeto paternal que Dustin Hoffman (em um competente papel de destaque) entrega com uma naturalidade e uma ternura que desarmam qualquer cinismo.
Exibido em Telluride, Sundance, no TIFF e em BFI antes de chegar ao circuito comercial, O Afinador acumulou críticas positivas que destacam o design de som imersivo como um dos mais inventivos do ano (coerente com uma história sobre audição) e a química entre Woodall e Hoffman como o maior trunfo do projeto. Para os fãs de thrillers com profundidade que vão além da ação física, é uma das estreias mais sólidas desta semana.
8 DÉCADAS DE AMOR
País: Espanha
Classificação Indicativa: 16 anos
Direção: Julio Medem
Roteiro: Julio Medem
Elenco: Javier Rey, Ana Rujas, Álvaro Morte
Produção: Barbazul La Pelicula, Eidan Procuciones.
Ao acompanhar décadas da vida de dois personagens marcados por encontros e desencontros, 8 Décadas de Amor constrói um retrato sensível sobre o tempo e seus efeitos sobre os relacionamentos.
A direção de Julio Medem aposta em uma narrativa emocional, que valoriza memórias, escolhas e oportunidades perdidas. O filme evita grandes explosões dramáticas e encontra sua força nos sentimentos acumulados ao longo dos anos.
É um romance melancólico e elegante, voltado para espectadores que apreciam histórias centradas nos personagens.
Criadas
Drama / Terror Psicológico / Realismo Fantástico – Brasil – 14 anos
Direção e Roteiro: Carol Rodrigues
Elenco: Mawusi Tulani, Ana Flávia Cavalcanti, Sarito Rodrigues, Ivy Souza, Rudmira Fula, Vitória Marques Rodrigues, Alice de Jesus Feitosa, Alli Willow, Tom Nunes e Jerry Gilli
Produção: Julia Zakia e Guilherme César (Gato do Parque) – Coprodução: Telecine, Canal Brasil, Volta Filmes, Naymovie, Cinefilm e Netas de Esméria – Produção Executiva: Juliana Lemes e Tiê Villares – Patrocínio: BNDES e Petrobras – Distribuição: Vitrine Filmes
Carol Rodrigues é uma das cineastas mais aguardadas do cinema brasileiro contemporâneo. Seus curtas — A Boneca e o Silêncio (2015) e A Felicidade Delas (2019) — acenavam para uma realizadora com domínio de linguagem, posicionamento político claro e uma capacidade rara de equilibrar intimismo e ambição temática. Em Criadas, seu primeiro longa de ficção, ela confirma essas promessas com uma obra que transita entre o drama social, o terror psicológico e o realismo fantástico para investigar uma questão que o Brasil insiste em não resolver: o que acontece com as marcas do racismo quando elas são transmitidas de geração em geração dentro da própria estrutura doméstica?
A trama começa com um reencontro: Sandra (Mawusi Tulani), filha de empregada doméstica, e Mariana (Ana Flávia Cavalcanti), filha da patroa, cresceram juntas na mesma casa. Décadas depois, se reencontram na propriedade da família — onde Sandra vai buscar uma foto de sua mãe falecida. A decisão impulsiva de morarem juntas novamente revela não apenas as feridas não cicatrizadas de uma relação marcada por assimetrias de raça e classe, mas também forças sobrenaturais que habitam aquela casa e que não aceitam pacificamente esse reencontro. Ao seu redor, há agora uma nova empregada doméstica — negra, estrangeira — cuja presença multiplica as contradições que o filme quer expor.
O trabalho das protagonistas é o alicerce da obra: Ana Flávia Cavalcanti entrega uma Mariana entregue ao personagem com uma dedicação sem vaidades, encarnando suas contradições com convicção; Mawusi Tulani constrói Sandra com uma delicadeza que concentra afeto, tristeza e resistência em cada gesto comedido. A combinação entre as duas rendeu o prêmio conjunto de Melhor Atriz na mostra Novos Rumos do Festival do Rio 2025. A crítica ressalta a qualidade do equilíbrio entre o naturalismo dos conflitos cotidianos e a aura sobrenatural que vai se instalando progressivamente — uma escolha estética que reforça a premissa de que o passado não para de assombrar. Criadas chega ao circuito comercial via Sessão Vitrine Petrobras, com ingressos a preços acessíveis em dezenas de cidades. Uma obra que merece e precisa de público.
Eu & Você Na Toscana (Reestreia)
Comédia / Romance – EUA – 12 anos
Direção: Kat Coiro
Roteiro: Ryan Engle and Kristin Engle
Elenco: Halle Bailey, Regé-Jean Page e Lorenzo de Moor
Produção: Will Packer, Federico Forti
Misturando romance, humor e belas paisagens italianas, Eu & Você na Toscana aposta na fórmula clássica das comédias românticas. A história acompanha uma jovem que vê sua vida virar de cabeça para baixo após uma série de mal-entendidos envolvendo uma influente família italiana.
O longa não tenta reinventar o gênero, mas encontra charme na química entre seus protagonistas e na ambientação cuidadosamente construída. A Toscana funciona quase como um personagem adicional, servindo de pano de fundo para situações leves e encontros inesperados.
Mesmo seguindo caminhos previsíveis, o filme entrega exatamente o que promete: uma experiência agradável para quem busca romance, humor e escapismo.
O BARULHO DA NOITE
País: Brasil
Classificação Indicativa: 16 anos
Direção: Eva Pereira
Elenco: Emanuelle Araújo, Marcos Palmeira, Alícia Santana, Patrick Sampaio
Produção: Lira Filmes, Eva Pereira, Márcio Mazaron
Misturando drama familiar e elementos de suspense psicológico, O Barulho da Noite acompanha a transformação da vida de uma menina após acontecimentos que rompem a aparente tranquilidade de sua rotina.
A narrativa trabalha temas delicados por meio do olhar infantil, criando uma atmosfera de tensão crescente. A direção aposta mais na sugestão do que em explicações diretas, permitindo diferentes interpretações.
O longa se destaca pela construção emocional e pela forma como utiliza o silêncio e a expectativa para gerar impacto.
BUENOS AIRES
País: Brasil
Classificação Indicativa: Livre
Direção: Tuca Siqueira
Roteiro: Tuca Siqueira
Produção: Garimpo Filmes
Em vez de olhar para a capital argentina, o documentário Buenos Aires volta sua atenção para uma pequena cidade brasileira que compartilha o mesmo nome. Nela encontramos histórias curiosas e personagens autênticos ao explorar a rotina local.
A produção valoriza a observação do cotidiano e o contato direto com seus moradores, revelando aspectos culturais pouco conhecidos do interior brasileiro.
É um trabalho simples, mas eficiente, que encontra humanidade em situações aparentemente comuns.
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