Michael
Cinebiografia / Drama Musical – EUA – 16 anos
Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: John Logan
Elenco: Jaafar Jackson, Colman Domingo, Nia Long, Miles Teller, Juliano Valdi, Kendrick Sampson, Laura Harrier, Jessica Sula e Mike Myers
Produção: Graham King / Lionsgate – Distribuição no Brasil: Lionsgate / Diamond Films
A cinebiografia mais aguardada dos últimos anos chega finalmente aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 23 de abril. Michael, dirigido por Antoine Fuqua (Dia de Treinamento, 2001), acompanha a trajetória do Rei do Pop desde os primeiros anos com o “Jackson 5”, em Gary, Indiana, até o auge da era Bad nos anos 1980. A escolha mais audaciosa da produção (e a que se prova mais acertada) foi escalar Jaafar Jackson, sobrinho do cantor na vida real e estreante nas telas, para interpretar o protagonista em sua fase adulta. Trata-se de uma mimetização extraordinária: não é imitação, mas incorporação — gestos, postura, voz, presença de palco. Em cena, ele convence plenamente.
O roteiro de John Logan organiza a narrativa como uma sucessão de marcos biográficos já amplamente conhecidos, tratados quase como itens obrigatórios de uma cartilha de Greatest Hits. A relação conturbada com Joe Jackson (Colman Domingo, em atuação bombástica que arranha o exagero calculado) é o eixo dramático central, funcionando como motor para as cenas mais tensas do filme. Colman Domingo constrói um antagonista de dupla face: o pai rígido que tentava tirar os filhos da pobreza e o homem consumido pela ambição. A montagem, porém, salta entre épocas com uma lógica que privilegia o espetáculo sonoro em detrimento do aprofundamento psicológico — e Fuqua, um cineasta que já demonstrou saber trabalhar tensão e intensidade, parece aqui domesticado pelo material.
O ponto mais crítico do filme está naquilo que ele deliberadamente omite: as polêmicas que definiram a segunda metade da vida de Michael são apenas sugeridas em sinistros vislumbres de “revelações” que o roteiro jamais se compromete a desenvolver. A escolha é conveniente, mas deixa uma sensação de incompletude que nenhuma sequência musical — por mais eletrizante que seja — consegue preencher. Michael não é o filme que Michael Jackson merecia. Mas é, em partes, um espetáculo inegavelmente envolvente… e a performance de Jaafar Jackson é um achado que justifica a ida ao cinema por si só.
Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra
Comédia / Ficção Científica – EUA – 16 anos
Direção: Gore Verbinski
Roteiro: Matthew Robinson
Elenco: Sam Rockwell, Juno Temple, Haley Lu Richardson, Michael Peña, Zazie Beetz e Asim Chaudhry
Produção: Constantin Film, Blind Wink Productions e 3 Arts Entertainment – Distribuição no Brasil: Paris Filmes
Gore Verbinski — diretor de O Chamado (2002) e da trilogia Piratas do Caribe — estava há dez anos longe da cadeira de direção desde Cura de Bem-Estar (2016). Seu retorno não poderia ser mais sintomático: Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra é uma comédia de ficção científica que, sob a superfície farsesca, funciona como um ensaio ansioso sobre o presente. A premissa é deliberadamente absurda: um homem identificado apenas como “Homem do Futuro” (Sam Rockwell) invade uma lanchonete em Los Angeles e tenta convencer estranhos — com uma bomba no peito, para variar — de que a humanidade está prestes a ser subjugada por uma inteligência artificial. O título é um bordão nascido em chats de jogos online, e Verbinski o usa como irônico grito de guerra para comentar nossa passividade diante dos algoritmos.
O filme transita entre referências claras — o loop temporal de Feitiço do Tempo e o robô implacável de O Exterminador do Futuro 2 —, mas os eleva a um nível de absurdo proposital que encontra identidade própria. A montagem fragmentada, os flashbacks editados como cards de perfil em rede social e o design sonoro com textura cartunesca nas cenas de ação são escolhas que comentam o próprio modo como a atenção humana foi reorganizada pelo ritmo das plataformas digitais. Verbinski compreende que o excesso — de informação, de estímulo, de paranoia — é a gramática do nosso tempo, e constrói seu filme dentro dessa lógica.
Sam Rockwell sustenta tudo com presença magnética: seu personagem transita entre o delírio e a lucidez, um profeta paranoico que já viveu aquela noite 117 vezes e ainda não conseguiu salvar o mundo. Juno Temple e Haley Lu Richardson funcionam como âncoras emocionais dentro do caos, enquanto Michael Peña e Zazie Beetz adicionam camadas de humor seco e carisma. Com 84% de aprovação no Rotten Tomatoes e passagens pelo Fantastic Fest 2025 e pela Berlinale 2026, Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra não vai agradar a todos — sua estrutura irregular e seu humor por vezes caótico podem afastar parte do público. Para quem entrar disposto a mergulhar, é um dos lançamentos mais originais e estimulantes do ano.
Um Pai em Apuros
Comédia – Brasil – 12 anos
Direção: Carolina Durão
Roteiro: Fil Braz (baseado no filme argentino Mama se Fue de Viaje, 2017, de Ariel Winograd)
Elenco: Rafael Infante, Dani Calabresa, Xande Valois, Bella Alelaf, Lara Infante, Caio Costa, Pedro Costa, Dan Ferreira, Lívia La Gatto e Macla Tenório
Produção: +Galeria, Telefilms, Glaz Entretenimento e Star Plus – Distribuição: +Galeria
A diretora Carolina Durão, que já havia mostrado desenvoltura com comédias de adaptação em Doce Família (2022), retorna ao mesmo território com Um Pai em Apuros, versão brasileira do sucesso argentino Mama se Fue de Viaje (2017). Fred (Rafael Infante) é um pai que, convicto de que “fazer sua parte” era suficiente, descobre o quanto se enganava quando a esposa Roberta (Dani Calabresa) decide — com razão — tirar férias em Salvador e deixá-lo a sós com os quatro filhos. O roteiro de Fil Braz, o mesmo de Minha Mãe é Uma Peça, cuida de ancorar a trama em um contexto bem brasileiro, sem abrir mão do humor familiar que o público da franquia argentina aprendeu a apreciar.
O grande trunfo do filme é seu elenco central. Rafael Infante — que a diretora define como “o Jim Carrey brasileiro” — entrega um Fred que improvisa com energia crescente a cada tomada, especialmente nas cenas com o caçula bebê, gêmeos Caio e Pedro Costa, onde o ator e os pequenos criam uma dinâmica de improviso genuinamente engraçada. Dani Calabresa, em cena menos tempo, compensa com uma Roberta que carrega o peso emocional da história: sua exaustão é real antes mesmo de embalar as malas. Um detalhe que confere autenticidade extra: Lara Infante, que interpreta a filha Clarice, é filha de Rafael na vida real.
O filme não esconde suas ambições além do entretenimento imediato: a crítica à sobrecarga feminina é declarada, e Durão se posiciona explicitamente sobre o tema. O roteiro poderia aprofundar mais esse comentário social — por vezes as piadas chegam antes das conclusões — mas no conjunto a produção entrega exatamente o prometido: uma comédia familiar divertida, solar e rodada com afeto em Belo Horizonte. Para quem busca uma sessão sem pretensão filosófica mas com bons momentos de humor e um coração no lugar certo, Um Pai em Apuros é uma escolha segura.
Dolores
Drama – Brasil – 14 anos
Direção: Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar
Roteiro: Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar (baseado em roteiro original de Chico Teixeira e Sabina Anzuategui)
Elenco: Carla Ribas, Naruna Costa, Ariane Aparecida, Gilda Nomacce, Zezé Motta e Roney Villela
Produção: Dezenove Som e Imagens, GT Produções e Misti Filmes
Há filmes que chegam às telas carregando o peso de uma homenagem. Dolores é um deles. O projeto partiu de um roteiro deixado inacabado pelo cineasta Chico Teixeira, falecido em 2019, que o concebeu como a conclusão de sua Trilogia dos Afetos — iniciada com A Casa de Alice (2007) e Ausência (2014). Coube a Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) e Maria Clara Escobar concluir a obra com um pudor que é, em si mesmo, uma declaração de respeito: menos uma reinvenção do projeto do que um esforço de fidelidade ao que Teixeira imaginou. Na tela, três gerações de mulheres numa São Paulo periférica: a matriarca Dolores (Carla Ribas), às vésperas dos 65 anos, com um passado de vício em jogos e o sonho de abrir um cassino; a filha Deborah (Naruna Costa), que espera o namorado sair da prisão; e a neta Duda (Ariane Aparecida), que trabalha num clube de tiro e quer emigrar para os EUA.
Os diretores optam por uma câmera contemplativa, colada aos rostos, que acompanha cada personagem com paciência e confiança nas atrizes — e acertam plenamente nessa aposta. Carla Ribas é magistral: sua Dolores é uma mulher que carrega a tensão entre o desejo e o medo em cada microexpressão, especialmente nas cenas de jogo, onde a esperança tensa e a fé amedrontada convivem de forma perturbadora. Naruna Costa e Ariane Aparecida seguem o mesmo diapasão, construindo mulheres que vivem em permanente negociação entre seus sonhos e a dureza de sua realidade. A fotografia de Joana Luz, com cores vivas e um brilho quase de lantejoulas, contrasta com o ambiente periférico e dá ao filme uma textura única — rara para uma produção ambientada em São Paulo.
A crítica aponta, com razão, que o roteiro às vezes parece trancafiado em relação ao potencial de seus temas — vício, encarceramento, armas, imigração — que mereceriam mais espaço. Os desfechos também dividem opiniões. Mas em nenhum momento Dolores deixa de ser o que é: um ato de amor ao cinema de Chico Teixeira, realizado com sensibilidade e habitado por quatro atrizes extraordinárias. Exibido no Festival de San Sebastián 2025 e na Première Brasil do Festival do Rio 2025, o filme estreia esta semana nos cinemas brasileiros.
O Ano em que o Frevo Não Foi pra Rua
Documentário – Brasil – 16 anos
Direção: Mariana Soares e Bruno Mazzoco
Elenco: Spok (Maestro e músico, autointitulado “o último folião”), Fernando Zacarias (Porta-estandarte do Galo da Madrugada), Carlos da Burra, Nena Queiroga, Rudá Rocha, Foliões anônimos.
Produção: Lira Filmes, Arte do Real
O Ano em que o Frevo Não Foi pra Rua é um documentário dirigido pela dupla Mariana Soares e Bruno Mazzoco que investiga o impacto da pandemia de Covid-19 sobre o carnaval pernambucano — em especial sobre o frevo, ritmo e dança declarados Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco em 2012. O título se refere ao Carnaval de 2021, primeiro em décadas a não acontecer nas ruas do Recife e Olinda em função das restrições sanitárias impostas pela pandemia.
O filme acompanha artistas, foliões, músicos e passistas que viram sua tradição, sua renda e sua identidade cultural abruptamente suspensas. Por meio de entrevistas e imagens de arquivo intercaladas com registros do silêncio das ruas que deveriam estar repletas de frevo e confete, os diretores constroem um retrato de resistência cultural e de luto coletivo — de uma cidade que perdeu, ainda que temporariamente, um dos pilares de sua existência.
O documentário é uma oportunidade de reconhecer a dimensão econômica e comunitária que uma festa como o carnaval ocupa em cidades como Recife, onde o frevo não é apenas entretenimento mas sustento, pertencimento e memória viva. Com informações técnicas ainda limitadas disponíveis, o lançamento reafirma o compromisso do cinema documental brasileiro com a preservação e o debate sobre as culturas populares do país.
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