SONG SUNG BLUE: UM SONHO A DOIS
Biografia musical – EUA
Direção: Craig Brewer
Roteiro: Craig Brewer (baseado no documentário de Greg Kohs)
Elenco: Hugh Jackman, Kate Hudson, Ella Anderson, Michael Imperioli, Fisher Stevens, Jim Belushi, King Princess, Mustafa Shakir, Hudson Hensley
Produção: Davis Entertainment, Focus Features
Craig Brewer adapta o documentário homônimo de 2008 transformando a história verdadeira de Lightning e Thunder — dupla de tributo a Neil Diamond de Milwaukee — em drama musical que equilibra celebração e tragédia. O resultado é filme sincero que encontra beleza nas aspirações modestas e na resiliência humana.
Hugh Jackman interpreta Mike Sardina, veterano do Vietnã e alcoólatra em recuperação trabalhando como imitador de Don Ho nas feiras de Wisconsin. Cansado de performances desinteressadas, ele abandona o palco exigindo cantar como si mesmo. É quando conhece Claire Stengl (Kate Hudson), mãe de dois filhos prestes a se apresentar como Patsy Cline. A química instantânea entre ambos evolui para romance e parceria musical celebrando o catálogo de Neil Diamond.
Brewer constrói narrativa que honra genuinamente músicos anônimos que tocam por amor à arte, não por fama global. O roteiro evita condescendência ao retratar trabalhadores que sonham pequeno — sua jornada nunca almeja estrelato nacional, mas sim conexão autêntica com audiências locais. Essa abordagem diferencia o filme de biopics tradicionais sobre ascensão meteórica.
A performance de Hudson justifica plenamente sua indicação ao Oscar. Ela incorpora Claire com calor, entusiasmo contagiante e vulnerabilidade comovente, equilibrando perfeitamente habilidades vocais e dramáticas. Jackman inicialmente exagera na arrogância de Mike, mas encontra equilíbrio emocional conforme o personagem amadurece através de tragédias pessoais.
O elenco coadjuvante (Michael Imperioli, Fisher Stevens, Jim Belushi) entrega um trabalho sólido criando comunidade crível ao redor do casal. Ella Anderson brilha particularmente como Rachel, uma filha cuja perspectiva oferece contraponto importante às decisões dos pais.
Tecnicamente impecável, a fotografia de Amy Vincent captura tanto a vibração naturalista dos ambientes quanto teatralidade necessária para sequências musicais. O problema surge no diálogo frequentemente cafona e compressão temporal melodramática que intensifica anos de sofrimento em montanha-russa emocional. Momentos alegres parecem abreviados comparados ao foco extenso nas lutas do casal. Ainda assim, manipulação emocional descarada funciona — é impossível resistir à sinceridade fundamental da história.
ALERTA APOCALIPSE
Suspense / Comédia – EUA
Direção: Jonny Campbell
Roteiro: David Koepp e Jonny Campbell
Elenco: Joe Keery, Georgina Campbell, Liam Neeson, Sosie Bacon, Lesley Manville, Vanessa Redgrave, Gavin Spokes, Ellora Torchia
Produção: StudioCanal, Pariah
O diretor Jonny Campbell entrega híbrido eficiente de ficção científica e horror com essa adaptação do romance homônimo de David Koepp que equilibra habilmente humor sombrio, sátira mordaz e tensão visceral. O resultado surpreende positivamente tanto pela inventividade quanto pela execução técnica competente.
A narrativa acompanha Teacake (Joe Keery) e Naomi (Georgina Campbell), funcionários de empresa de self-storage construída sobre antiga base militar americana. Durante plantão noturno aparentemente rotineiro, descobrem que os níveis subterrâneos abrigam segredo letal: fungo parasitário extraterrestre selado pelo governo décadas atrás. Quando o organismo escapa, desencadeia infecção rapidamente mutante que controla cérebros e destrói corpos de hospedeiros humanos e animais.
O roteiro de Koepp (adaptando seu próprio romance de 2019), destaca-se pelo equilíbrio entre seus comentários mordazes sobre a incompetência governamental e o mais puro entretenimento. A sátira sobre agências federais incapazes de proteger a população ressoa sem transformar-se numa pregação pesada. Ao mesmo tempo, o filme oferece sequências de ação onde criaturas infectadas (notadamente animais criados digitalmente) perseguem vítimas por corredores claustrofóbicos.
Keery e Campbell desenvolvem uma química natural, transformando personagens potencialmente bidimensionais em uma dupla carismática e crível. Ambos navegam habilmente entre momentos cômicos e dramáticos, mantendo a humanidade mesmo durante as sequências mais absurdas. Neeson entrega uma performance caracteristicamente sólida, trazendo gravidade necessária mas sem sucumbir à autoparodia. “Alerta Apocalipse” funciona como um thriller contagiante (perdoe o trocadilho) que respeita inteligência da audiência enquanto entrega uma diversão descaradamente inteligente.
A VOZ DE HIND HAJAB
Suspense –
Direção: Kaouther Ben Hania
Roteiro:
Elenco: Saja Kilani, Motaz Malhees, Amer Hlehel, Clara Khoury, Nesbat Serhan, Ramy Brahem, Firas Khoury
Produção: Mime Films, Tanit Films, Film4 Productions, MBC Studios, RaeFilm Studios, JW Films, Willa
Kaouther Ben Hania constrói um memorial cinematográfico profundamente comovente sobre uma tragédia real ocorrida em Gaza. Ao invés de explorar uma violência visual pura e simples, a diretora concentra-se na experiência emocional de voluntários da organização “Crescente Vermelho” lutando para salvar uma menina de seis anos presa em um carro sob fogo cruzado.
A abordagem técnica distingue o filme: Ben Hania utiliza gravações telefônicas reais de Hind Rajab durante suas horas de suplício, enquanto atores interpretam a equipe de resgate respondendo às suas súplicas. Essa técnica “docudramática” borra as fronteiras entre realidade e ficção, criando uma imersão devastadora.
Motaz Malhees impressiona como Omar, um jovem operador impulsivo determinado a enviar sua equipe independentemente dos riscos. Amer Hlehel equilibra frustração e responsabilidade profissional como o supervisor Mahdi. Saja Kilani brilha particularmente como Rana, tornando-se uma figura materna virtual para a criança desesperada. Clara Khoury completa o elenco como uma terapeuta navegando por pressões emocionais extremas.
Ben Hania (indicada ao Oscar anteriormente por “As 4 Filhas de Olfa”), novamente demonstra um talento singular para extrair humanidade de tragédias políticas sem transformá-las em propaganda. O filme concentra-se exclusivamente em um centro de emergência, evitando mostrar perpetradores ou vítimas visualmente, uma escolha que intensifica o horror através da ausência de julgamento.
“A Voz de Hind Rajab” transcende divisões políticas ao focar simplesmente em pessoas tentando salvar uma vida inocente. É cinema necessário, doloroso e inesquecível.
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