HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET
Drama – EUA
Direção: Chloé Zhao
Roteiro: Maggie O’Farrell, Chloé Zhao
Elenco: Paul Mescal, Jessie Buckley, Emily Watson
Produção: Amblin Entertainment
Hamnet é um filme que impressiona pela forma como combina história, emoção e tensão narrativa de maneira profundamente envolvente. A obra se baseia em eventos que giram em torno da perda e das ramificações psicológicas dessa perda na vida de uma família, trazendo um olhar delicado, mas também incômodo, sobre como o sofrimento pode moldar relacionamentos e decisões. Em vez de construir um drama confortável, o filme se mantém em uma zona de tensão quase constante, conseguindo prender o espectador por meio de suas sutilezas.

O roteiro se destaca pela maneira calculada com que conduz as cenas: nada ali é gratuito ou desprovido de propósito. Cada diálogo, cada silêncio e cada escolha dos personagens acrescenta camadas à narrativa, fazendo com que o público sinta a pressão emocional que os personagens experimentam. O diretor opta por não suavizar os elementos mais dolorosos da história — pelo contrário: ele os expõe de maneira clara, quase implacável, o que pode ser desafiador para quem busca algo mais leve ou escapista.
As atuações são outro ponto de destaque importante. O elenco consegue transmitir acontecimentos internos com uma intensidade que vai além do que está sendo dito. A interpretação dos personagens principais cria uma ponte emocional com quem assiste, fazendo com que a dor, a dúvida e a busca por significado se tornem quase palpáveis. Essa entrega dos atores contribui para que Hamnet se torne mais do que apenas um relato histórico ou uma adaptação literária: o filme transforma a experiência de assistir em algo quase físico pelos temas que aborda.
No fim, Hamnet é uma obra cinematográfica poderosa porque não se esquiva dos aspectos mais difíceis da experiência humana. Ele não oferece respostas fáceis nem alívios simplistas; em vez disso, convida o público a refletir sobre como o amor, a perda e a memória moldam nossas vidas. Para quem está disposto a se envolver de forma séria com uma história que mistura introspecção e intensidade emocional, este filme oferece uma experiência verdadeiramente marcante.
O BEIJO DA MULHER ARANHA
Musical / Drama– EUA
Direção: Bill Condon
Roteiro: Bill Condon
Elenco: Jennifer Lopez, Diego Luna, Tonatiuh,
Produção: Nuyorican Productions, FilmDallas Pictures, Sugarloaf Films, Inc
Na nova versão de O Beijo da Mulher-Aranha, o filme aposta fortemente no carisma e na presença de sua protagonista feminina, que encarna uma figura construída entre fantasia, desejo e projeção. A obra revisita uma história já conhecida do cinema (adaptada originalmente em 1985 por Hector Babenco) mas agora se concentra menos no realismo político e mais na dimensão performática e emocional da personagem que habita o imaginário do protagonista.
Essa releitura transforma a personagem feminina em algo maior do que apenas uma lembrança ou fuga: ela passa a representar um ideal de glamour, liberdade e identidade. A atuação é deliberadamente exagerada em certos momentos, quase teatral, como se o filme estivesse consciente de que está encenando não apenas uma história, mas um sonho — ou até mesmo uma versão idealizada de quem se gostaria de ser. Essa escolha divide opiniões, mas é coerente com a proposta estética adotada.
O longa funciona melhor quando assume esse jogo entre realidade dura e fantasia escapista. As sequências em que a imaginação se sobrepõe ao cotidiano são as mais fortes, criando contraste com o ambiente opressivo em que a narrativa principal se desenvolve. Ao mesmo tempo, essa abordagem mais estilizada faz com que o filme se afaste da densidade dramática que marcou a versão cinematográfica de 1985, optando por uma leitura mais emocional e sensorial.
Não se trata de uma simples atualização ou substituição do filme original, mas de uma interpretação diferente do mesmo material. Enquanto a versão de 1985 ficou marcada pela contenção e pela força política de seu contexto, esta nova adaptação se apoia na expressividade, no artifício e na construção de uma personagem que vive entre o palco e o desejo. O resultado é um filme que pode não agradar a todos, mas que deixa clara sua intenção: revisitar um clássico sob uma lente mais subjetiva, voltada ao poder da imaginação como forma de sobrevivência.
SIRAT
Suspense – EUA
Direção: Óliver Laxe
Roteiro: Santiago Fillol, Óliver Laxe
Elenco: Sergi López, Bruno Núñez Arjona, Richard Bellamy, Stefania Gadda, Joshua Liam Henderson, Tonin Janvier, Jade Oukid
Produção: Los Desertores Films AIE, Telefónica Audiovisual Digital, Filmes Da Ermida, El Deseo, Uri Films, 4A4 Productions
Sirât acompanha a jornada de um pai, Luis (interpretado por Sergi López), e seu filho pequeno, Esteban (Bruno Núñez Arjona), que se juntam a um grupo nômade de ravers na busca por uma filha desaparecida. O diretor Laxe constrói uma narrativa que ganha força progressivamente, apresentando uma abertura visualmente impactante que estabelece o tom da obra desde os primeiros minutos.
Laxe demonstra um refinamento estético constante, mesmo quando trabalha com um roteiro (coescrito com Santiago Fillol) que por vezes adota uma abordagem minimalista. A performance de López como o determinado e taciturno Luis ancora o filme com solidez, enquanto o elenco majoritariamente composto por não-atores surpreende pela naturalidade — um mérito indiscutível da direção.
É verdade que a porção intermediária da obra apresenta uma estrutura fragmentada, com altos e baixos no ritmo narrativo. Porém, após um momento decisivo e perturbador, Sirât muda completamente de registro, transformando-se em um thriller intenso e angustiante que conduz o espectador até um desfecho satisfatório. O resultado final é uma realização ousada e de alto nível, consolidando Laxe como um cineasta de grande potencial.
EXTERMÍNIO, O TEMPLO DOS OSSOS
Suspense – EUA
Direção: Nia DaCosta
Roteiro: Alex Garland
Elenco: Ralph Fiennes, Aaron Taylor-Johnson, Jack O’Connell e Emma Laird
Produção: DNA Films, BFI, Decibel Films
“Extermínio, o templo dos ossos” expande o universo já conhecido de “28 anos Depois”, dividindo-o em duas partes. Essa segunda parte optou por um caminho mais sombrio, introspectivo e desconfortável. Em vez de apostar apenas no impacto visual ou no choque imediato, o filme se dedica a construir uma atmosfera de desgaste emocional e moral, mostrando um mundo que não apenas sobreviveu ao colapso, mas foi lentamente deformado por ele ao longo das décadas.
A narrativa se concentra menos no caos explosivo e mais nas cicatrizes deixadas pelo tempo. O horror aqui não vem apenas da ameaça externa, mas da normalização da violência, da fé distorcida e da transformação da sobrevivência em ritual. O chamado “Templo dos Ossos” funciona como símbolo máximo desse novo estágio da humanidade: um espaço onde medo, crença e brutalidade se misturam de forma perturbadora.
O filme dialoga com as origens da série — que ganhou força com o longa lançado em 1985 — mas não tenta repetir sua estrutura ou impacto. Ao invés disso, escolhe amadurecer junto com seu universo, refletindo sobre como o passar dos anos não trouxe redenção, apenas novas formas de barbárie. Essa abordagem mais lenta e reflexiva pode afastar quem espera um terror mais direto, mas recompensa o espectador disposto a mergulhar em um horror mais psicológico e existencial.
Visualmente, a produção reforça esse tom opressivo com cenários degradados e uma sensação constante de abandono. Tudo parece antigo, corroído e sem esperança de reconstrução, como se o mundo estivesse preso em um luto permanente. O filme entende que o verdadeiro terror não está apenas no que ataca, mas no que permanece quando não há mais nada a ser salvo.
“Extermínio, o templo dos ossos” não é uma continuação feita para agradar facilmente. É uma obra que prefere provocar desconforto, levantar questões incômodas e mostrar que, após tanto tempo, o maior inimigo talvez não seja o desastre inicial… mas aquilo em que a humanidade se transformou para continuar existindo.
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