MARTY SUPREME
Drama biográfico – EUA
Direção: Josh Safdie
Roteiro: Josh Safdie, Ronald Bronstein
Elenco: Timothée Chalamet, Gwyneth Paltrow, Odessa A’zion
Produção: A24, IPR.VC e Central Pictures
Marty Supreme é um filme que se sustenta quase inteiramente na força de seu personagem central e na performance intensa de Chalamet, que assume o papel com uma mistura de carisma, arrogância e vulnerabilidade. Sob a direção de Josh Safdie, o longa aposta em uma narrativa crua, nervosa e marcada por impulsos — características já associadas ao estilo do cineasta.
A história acompanha a ascensão e os excessos de um jovem obcecado por status, poder e reconhecimento. O filme não tenta transformar Marty em um herói clássico nem em um vilão fácil de rotular. Pelo contrário: ele é retratado como alguém movido por ambição desmedida, insegurança e desejo constante de validação. Essa construção faz com que o espectador oscile entre empatia e rejeição ao longo da projeção.
Josh Safdie conduz o filme com ritmo irregular de propósito. Algumas sequências são caóticas, quase sufocantes, enquanto outras desaceleram para expor o vazio emocional do protagonista. Essa alternância reforça a ideia de que o sucesso perseguido por Marty tem um custo alto — emocional, físico e moral. O diretor não suaviza as consequências das escolhas do personagem, preferindo encará-las de frente.
Além de Chalamet, o elenco de apoio contribui para criar um ambiente de tensão constante, em que relações parecem sempre à beira do colapso. Os diálogos são secos e diretos, muitas vezes mais reveladores pelo que não é dito do que pelas palavras em si. O filme evita explicações fáceis e confia na inteligência do público para interpretar os comportamentos e silêncios.
No conjunto, Marty Supreme é um retrato incômodo sobre ego, obsessão e identidade. Não é um filme feito para agradar ou confortar, mas Josh Safdie parece entregar essa premissa logo de cara. Em suma, trata-se de uma obra coerente com sua filmografia, enquanto Chalamet reafirma sua disposição para assumir personagens arriscados e emocionalmente expostos. O resultado é um filme intenso, imperfeito por escolha, e feito para permanecer.
A ÚNICA SAÍDA (Eojjeolsuga eobsda)
Drama / Suspense – Coreia do Sul
Direção: Park Chan-Wook
Roteiro: Park Chan-Wook, Kyoung-mi Lee
Elenco: Lee Byung-Hun, Ye-jin Son, Park Hee-Soon
Produção: Moho Film Production e CJ Entertainment
Park Chan-wook, diretor de “Oldboy” e “A Criada”, retorna com uma obra que equilibra humor negro devastador e crítica social afiada. “No Other Choice” acompanha Man-su, interpretado brilhantemente por Lee Byung-hun, um executivo que dedicou 25 anos à indústria de papel e vê sua vida desmoronar após uma demissão súbita.
O que começa como um drama sobre desemprego se transforma em thriller macabro quando Man-su, após enfrentar entrevistas humilhantes, desenvolve um plano sinistro: eliminar seus concorrentes para garantir uma vaga na empresa dos sonhos. Park transforma essa premissa provocativa em análise devastadora sobre masculinidade frágil e as violências silenciosas do capitalismo contemporâneo.
A direção meticulosa é marca registrada do cineasta. Cada enquadramento comunica significado, transformando espaços domésticos em ambientes claustrofóbicos. A casa da família, com arquitetura que mescla elementos franceses e brutalistas, funciona como metáfora visual para as contradições da vida burguesa que o protagonista tanto valoriza.
Lee Byung-hun entrega performance notável, equilibrando patetismo e determinação. Seu Man-su é simultaneamente ridículo e trágico — um homem tão preso à identidade profissional que se torna incapaz de imaginar outra versão de si mesmo. Son Ye-jin brilha como Miri, demonstrando adaptabilidade que contrasta com a rigidez do marido.
O grande diferencial é o humor negro implacável. Park encontra comédia em lugares improváveis, transformando violência em slapstick macabro. Esse humor não ameniza a crítica; ao contrário, torna-a mais mordaz, forçando o público a confrontar a absurdidade do sistema.
Baseado em romance de Donald Westlake, o filme ressoa poderosamente com ansiedades contemporâneas sobre automação e precarização do trabalho. Park captura algo essencial sobre o momento atual, onde trabalhadores sentem crescente instabilidade.
“A Única Saída” é cinema de autor no melhor sentido — provocativo, tecnicamente impecável e profundamente humano em sua exploração de dilemas morais complexos. Park mais uma vez confirma seu status como um dos grandes mestres do cinema contemporâneo.
JUSTIÇA ARTIFICIAL (Mercy)
Ficção Científica / Ação – EUA
Direção: Timur Bekmambetov
Roteiro: Marco van Belle
Elenco: Chris Pratt, Rebecca Ferguson, Annabelle Wallis
Produção: Atlas Entertainment, Bazelevs Production
O diretor Bekmambetov retorna ao cinema de ficção científica com “Mercy”, um thriller que apresenta conceitos ambiciosos mas tropeça na execução. O filme acompanha o detetive Chris Raven, interpretado por Chris Pratt, acusado de assassinar sua esposa. Sua sentença será decidida em apenas 90 minutos por uma inteligência artificial judicial chamada Juíza Maddox, vivida por Rebecca Ferguson.
A premissa central evoca clássicos como “D.O.A.” (1949), onde um protagonista tem tempo limitado para provar sua inocência antes de um destino inevitável. Aqui, a corrida contra o relógio ganha contornos tecnológicos, com Raven precisando convencer o sistema de IA que ele próprio defendia em sua carreira como investigador.
Bekmambetov demonstra habilidade em criar tensão visual e sequências de ação dinâmicas, características presentes em seus trabalhos anteriores. O diretor constrói um futuro próximo plausível, onde a tecnologia judicial substitui processos tradicionais em nome da eficiência. Visualmente, o filme entrega momentos impressionantes que justificam a experiência em IMAX.
No entanto, o roteiro de Marco van Belle falha em explorar adequadamente as implicações éticas e sociais de seu próprio conceito. Para um filme centrado em inteligência artificial e justiça automatizada, há uma surpreendente falta de profundidade filosófica. O sistema apresentado ignora completamente as garantias constitucionais da democracia americana, mas o filme não parece interessado em examinar essas contradições de maneira significativa.
Chris Pratt esforça-se para trazer nuances ao personagem, mas o material não oferece oportunidades suficientes para demonstrar amplitude dramática. Rebecca Ferguson entrega presença intimidadora como a IA juíza, embora o papel seja essencialmente unidimensional. Kali Reis e Annabelle Wallis aparecem em papéis coadjuvantes sem desenvolvimento substancial.
O maior problema de “Mercy” é tratar sua premissa provocativa como mero dispositivo para perseguições e revelações de conspiração, quando poderia ser veículo para comentário social relevante sobre automação, justiça e confiança em sistemas tecnológicos. O resultado é entretenimento funcional mas esquecível, que desperdiça potencial considerável.
SHELL
Drama / Terror – EUA
Direção: Max Minghella
Roteiro: Jack Stanley
Elenco: Chris Pratt, Rebecca Ferguson, Annabelle Wallis
Produção: Dark Castle Entertainment, Range Media Partners, Love & Squalor Pictures, Blank Tape
Max Minghella enfrenta o desafio impossível de dirigir um filme de horror corporal sobre obsessão com juventude meses após “A Substância” conquistar indicação ao Oscar. “Shell” segue trajetória similar: uma atriz em declínio busca vantagem competitiva através de tratamento experimental prometendo eterna juventude.
Elisabeth Moss interpreta Samantha Lake, profissional que perde papéis para atrizes mais jovens e encontra salvação na empresa Shell, comandada pela carismática Zoe Shannon (Kate Hudson). O tratamento funciona extraordinariamente bem — até revelar consequências aterradoras envolvendo transformações corporais grotescas.
O roteiro de Jack Stanley apresenta estrutura convencional, prejudicada por excesso de prenúncios. Minghella utiliza simbolismo pesado e referências televisivas artificiais que telegrafam desenvolvimentos futuros, tratando o público como incapaz de acompanhar sutilezas narrativas. Cada pista é sublinhada repetidamente, eliminando surpresas genuínas.
Tecnicamente, o filme demonstra competência visual. A direção captura adequadamente o mundo futurista-glamouroso da indústria de beleza, com design de produção vibrante evocando estética dos anos 90. Uma sequência notável apresenta plano-sequência extenso atravessando set caótico, provando habilidade técnica do diretor.
As performances elevam o material imperfeito. Moss equilibra vulnerabilidade e determinação, criando protagonista simpática apesar de escolhas questionáveis. Hudson claramente diverte-se como vilã, canalizando energia vampiresca que remete a “A Morte Lhe Cai Bem”, embora seu personagem permaneça bidimensional.
O terceiro ato toma direção inesperada, diferenciando-se de “A Substância” através de escolhas narrativas alternativas. Ambos convergem para terror corporal extremo, mas Shell oferece variação que surpreende mesmo expectadores familiarizados com convenções do gênero.
Minghella ainda não alcança a maestria de seu falecido pai Anthony (diretor vencedor do Oscar por “O Paciente Inglês”), mas mostra potencial. O problema fundamental é que “Shell” existe na sombra inevitável de filme superior sobre tema idêntico, prejudicando sua recepção independentemente de méritos próprios.
Para fãs de horror corporal dispostos a experimentar variação sobre tema recente, o filme oferece entretenimento adequado. Porém, comparações desfavoráveis são inevitáveis e justificadas.
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