Filmes em Cartaz nos Cinemas – Destaques de 12 a 18 de março de 2026

Divirta-se Cinema Noticias

MISSÃO REFÚGIO

Ação / Suspense – EUA

Direção: Ric Roman Waugh

Roteiro:  Ward Parry

Elenco: Jason Statham, Bodhi Rae Breathnach, Bill Nighy

Produção: Diamond Films

Somos reapresentados à figura saudosa de Jason Stathan no papel de um protagonista que escolheu o isolamento absoluto. Vivendo em uma ilha distante apenas com seu cão, ele evita qualquer contato com o mundo exterior, dependendo de uma jovem e seu tio para o fornecimento de suprimentos básicos. No entanto, o destino intervém durante uma tempestade severa: ao salvar a menina de um naufrágio, o homem acaba exibindo sua localização e despertando fantasmas de um passado que ele tentou enterrar.

O diretor Ric Roman Waugh conduz uma narrativa que, embora demore a engrenar para estabelecer os laços afetivos entre os personagens, transforma-se em um thriller frenético assim que a ação começa. O filme utiliza a figura de Jason Statham no papel do herói resiliente, desta vez enfrentando não apenas inimigos físicos, mas também os perigos da vigilância moderna. Um dos pontos altos é a abordagem sobre a Inteligência Artificial e o monitoramento digital, criando uma atmosfera onde o protagonista nunca está realmente invisível enquanto houver uma câmera ou um celular por perto.

A dinâmica entre Jason Statham e a jovem Bodhi Rae Breathnach é o coração da história, dando peso emocional às cenas de combate coreografadas com criatividade. Embora o roteiro siga fórmulas conhecidas do gênero de espionagem e traição, a execução é competente. O elenco de apoio, que conta com nomes como Bill Nighy e Naomi Ackie, cumpre bem seu papel, ainda que suas subtramas não sejam profundamente exploradas. Mas é compreensível, afinal, a gente lembra que num filme de Statham não sobra muito tempo para subtramas. No fim, o longa entrega exatamente o que promete: entretenimento sólido, sequências de impacto e uma (mini) reflexão sobre a perda de privacidade no mundo conectado.

POV PRESENÇA OCULTA

Terror – EUA

Direção: Brandon Christensen

Roteiro: Brandon Christensen e Ryan Christensen

lenco: Sean Rogerson, Jaime M. Callica, Catherine Lough Haggquist, Angel Prater, Keegan Connor Tracy

Produção: Digital Caviar / Imagem Filmes (Distribuidora)

Em POV – Presença Oculta, o subgênero de found footage (enredos criados a partir de um filme encontrado pela polícia) ganha um fôlego renovado ao utilizar a estética das câmeras corporais da polícia para construir um pesadelo claustrofóbico. A trama acompanha dois oficiais que, após um incidente fatal durante uma chamada de rotina, tomam a decisão ética (e legal) desastrosa de apagar as imagens de seus uniformes para ocultar a verdade. O que eles não previam é que, ao tentarem deletar a prova digital, despertariam uma força que não pode ser apagada por algoritmos.

O diretor Brandon Christensen utiliza com maestria o campo de visão limitado das câmeras presas aos personagens para gerar uma tensão constante. O espectador é colocado diretamente no centro do conflito moral e físico, onde cada falha digital ou distorção na imagem sinaliza que algo inominável está à espreita. A performance de Sean Rogerson, como o oficial consumido pela culpa e pelo desespero, ancora o filme em um realismo desconfortável que transita organicamente do drama policial para o horror sobrenatural.

Ao contrário de outras produções do gênero que abusam de sustos fáceis, o longa investe na atmosfera e na paranoia. A “presença” do título é sentida através de sons metálicos e vultos que desafiam a lógica, transformando a tecnologia de vigilância — feita para trazer segurança — em uma ferramenta de terror absoluto. É uma obra curta, direta e imersiva que questiona: quem vigia aqueles que nos vigiam quando o mal não é humano?

IRON LUNG

Fantasia – EUA

Direção: Mark Fischbach

Roteiro: Mark Fischbach

Elenco: Mark Fischbach, Caroline Kaplan e Troy Baker (voz)

Distribuição: Markplier Studios

É impossível não torcer por um projeto como Iron Lung. Ver um criador de conteúdo como Mark Fischbach (Markiplier) investir o próprio capital para transformar uma ideia independente em um longa-metragem é o tipo de história que todo entusiasta do cinema gosta de acompanhar. O filme, que adapta o videogame homônimo, chega aos cinemas com um sucesso de bilheteria impressionante em relação ao seu orçamento (de apenas 3 milhões de dólares!), provando o poder da paixão de sua comunidade.

Visualmente, o filme é um triunfo. Para uma produção fora dos grandes estúdios, a estética é surpreendentemente polida. O design de som é outro ponto alto, elevando a tensão e criando uma atmosfera opressiva que compensa eventuais limitações de efeitos visuais. A premissa — um condenado em um submarino precário explorando um oceano de sangue em uma lua desolada — é, conceitualmente, espetacular.

Entretanto, o filme enfrenta problemas de ritmo. Para quem não conhece o jogo ou o “lore” original, o primeiro ato pode soar excessivamente lento e repetitivo. A obra exige paciência, e embora Markiplier entregue um esforço emocional considerável carregando o filme praticamente sozinho, em certos momentos a sua falta de alcance dramático como ator fica evidente.

A segunda metade do longa traz momentos genuinamente empolgantes e o desfecho recompensa quem ficou até o fim, mas a narrativa falha em construir um interesse profundo para o espectador leigo desde o início. É uma recriação fiel e tecnicamente admirável, mas que talvez ressoe muito mais com os fãs já convertidos do que com o público geral. Ainda assim, é um marco para o cinema independente que merece ser celebrado pela sua coragem e execução técnica.

A PEQUENA AMÉLIE

Animação – Bélgica

Direção: Mailys Vallade, Liane-Cho Han

Roteiro: Liane-Cho Han e Benoît Philippon

Elenco: Loïse Charpentier, Victoria Grosbois, Isaac Schoumsky

Produção: Maybe Movies / France 3 Cinéma 

Em A Pequena Amélie, somos convidados a revisitar o universo lúdico e sensível que outrora encantou o mundo, mas agora sob a ótica vibrante da animação. Com direção conjunta de Mailys Vallade e Liane-Cho Han, o filme não tenta apenas emular o clássico de 2001; ele expande a mitologia da personagem através de uma estética que mistura aquarela e traços modernos, capturando a essência mágica da Paris cotidiana.

A trama foca na infância da protagonista, explorando o isolamento que moldou sua visão de mundo peculiar. Onde muitos veriam solidão, a pequena Amélie encontra aventura. A dupla de diretoras utiliza a liberdade da animação para dar vida aos pensamentos da menina: animais de nuvens e objetos que sussurram segredos tornam-se elementos tangíveis na narrativa. É um deleite visual que utiliza uma paleta de cores quentes e saturadas para transmitir um otimismo quase tátil.

Embora o roteiro de Liane-Cho Han e Benoît Philippon se apoie fortemente na nostalgia, o filme brilha ao introduzir temas contemporâneos sobre neurodiversidade e a importância da empatia. É uma obra que fala diretamente às crianças pela sua fantasia, mas que atinge os adultos como um abraço reconfortante, lembrando-nos que a beleza reside nos menores detalhes da vida.

Em termos de performances, o elenco entrega uma combinação sólida de naturalidade e tensão contida, sem exageros dramáticos que poderiam tirar a credibilidade da história. A direção de fotografia contribui demais para a imersão, capturando paisagens isoladas e detalhes visuais que reforçam tanto a beleza quanto o desconforto daquele ambiente.

No geral, esse filme não é um thriller convencional e nem tenta seguir fórmulas já desgastadas do gênero. Ele se vale do silêncio, da expressão corporal e de decisões narrativas ousadas para instigar o público a pensar, sentir e, sobretudo, permanecer atento a cada nuance. É o tipo de filme que cresce na memória de quem o assiste — não apenas pelo desenrolar da ação, mas pelo espaço que deixa para reflexão depois dos créditos finais.

TIMIDEZ

Drama – Brasil

Direção: Susan Kalik e Thiago Gomes Rosa

Roteiro: Susan Kalik, Cláudia Barral e Marcos Barbosa 

Elenco: Dan Ferreira, Evana Jeyssanm, Antônio Marcelo

Produção: Clélia Bessa e Marcos Pieri

Timidez surge como um dos filmes mais comentados do cinema nacional recente, combinando autenticidade, humor sutil e sensibilidade narrativa. A produção baiana conquistou destaque ao ganhar seis prêmios no Festival de Cinema de Triunfo, sinalizando que sua abordagem delicada e seu olhar introspectivo ressoaram fortemente entre críticos e público especializado.

O longa acompanha personagens que, à primeira vista, parecem comuns, mas que aos poucos revelam camadas profundas de insegurança, desejos não ditos e conflitos internos. A timidez aqui não é apenas um traço de personalidade, mas uma lente pela qual enxergamos os desafios emocionais de seus protagonistas — seja na interação com outras pessoas, no enfrentamento de situações cotidianas ou no embate entre sonhos e medos.

O que mais chama atenção em Timidez é o modo como os diretores e o elenco conseguem equilibrar humor e drama sem cair em exageros. As cenas mais leves não diminuem a profundidade da história; ao contrário, ajudam a humanizar personagens que, apesar de vivenciarem suas inseguranças, permanecem acessíveis e identificáveis. Essa mistura de leveza e reflexão cria uma experiência cinematográfica íntima, que conversa com quem já se sentiu deslocado ou lutou para se expressar.

Embora o ritmo mais contemplativo possa não agradar a todos, ele se justifica pela proposta do filme: não se trata de um entretenimento acelerado, mas de um convite à empatia e ao entendimento de traços humanos que muitas vezes são negligenciados.

ENZO

Drama – Itália/França/Bélgica

Direção: Robin Campillo

Roteiro: Robin Campillo e Laurent Cantet

Elenco: Eloy Pohu, Pierfrancesco Favino, Elodie Bouchez, Maksym Slivinskyi, Nathan Japy, Vladyslav Holyk, Malou Khebizi, Philippe Petit

Produção: Lucky Red, Page 114, Les Films du Fleuve, France 3 Cinéma, AMI Alexandre Mattiussi.

Robin Campillo apresenta em Enzo um trabalho cinematográfico que habita os espaços menos evidentes da narrativa, onde sentimentos permanecem sutis e contidos. O que inicialmente parece ser uma história convencional de amadurecimento — um jovem de classe média que escolhe trabalhar na construção civil para se distanciar do ambiente familiar privilegiado — transforma-se em um estudo profundo sobre a Geração Z, caracterizada pela apatia, incerteza e uma busca silenciosa por pertencimento.

A direção de Campillo acompanha Enzo, interpretado com sensibilidade impressionante pelo estreante Eloy Pohu, mantendo uma distância observacional que não julga nem oferece explicações fáceis. Cada movimento, cada momento de silêncio, expõe a tensão existente entre corpo e identidade, entre conforto material e vazio existencial. O protagonista sente-se deslocado tanto no ambiente acolhedor de sua casa quanto no trabalho físico e árduo da obra. Porém, é justamente ali, em meio ao suor, à poeira e aos olhares trocados com Vlad — o trabalhador ucraniano que representa força bruta e desejo não declarado — que ele começa a descobrir seu próprio despertar.

O diretor aborda o homo erotismo com autenticidade, evitando os lugares-comuns típicos de narrativas de descoberta juvenil. Sua perspectiva é ética e comedida, consciente do significado simbólico de retratar o desejo em um corpo adolescente. Em vez de fornecer respostas prontas, o filme levanta questionamentos: como alguém se define quando tudo — origem social, família, trajetória — parece já ter sido determinado? O filme sugere que o autoconhecimento não acontece como uma epifania, mas como uma vivência incerta, uma pausa entre receio e interesse.

Do ponto de vista visual, Enzo é construído com economia narrativa e precisão estética. A iluminação do sul da França, intensa e mineral, realça a materialidade do mundo físico: concreto, pele, temperatura. A ausência de trilha sonora e a edição discreta criam uma atmosfera de distanciamento que lembra o existencialismo de Antonioni ou a observação social de Laurent Cantet, a quem o filme presta tributo de maneira sutil e tocante.

Em sua aparente tranquilidade, Enzo sintetiza as tensões de uma geração que cresce entre abundância material e ausência de sentido. Campillo não busca chocar, mas sim compreender. Compreender os jovens que não vocalizam seus conflitos, mas apenas observam. Compreender o desejo quando ele ainda não consegue se articular em palavras. Nesse exercício, seu cinema reafirma sua força política e afetiva: a capacidade de encontrar humanidade nos momentos de quietude.

Mais do que simplesmente uma narrativa sobre descobrir-se, Enzo funciona como um reflexo da vulnerabilidade contemporânea, uma reflexão sobre identidade e isolamento em tempos de fartura. Campillo entrega um trabalho austero porém repleto de sensibilidade, uma obra que comprova que as histórias mais impactantes nem sempre são barulhentas: algumas vezes, elas apenas murmuram.

KOKUHO – O MESTRE KABUKI

Drama – Japão

Direção: Lee Sang-il

Roteiro: Satoko Okudera, Shuichi Yoshida

Elenco: Keitatsu Koshiyama, Soya Kurokawa, Ai Mikami

Produção: Shinzo Matsuhashi, Chieko Murata, Minami Ichikawa, Akihito Watanabe.

No Japão, o termo “kokuho” é utilizado para designar tesouros nacionais e personalidades excepcionais que alcançaram maestria absoluta em suas respectivas áreas artísticas ou profissionais. Este é também o título da nova produção épica de Lee Sang-il, lançada pela Toho e escolhida como representante japonesa na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026. Não por acaso, tornou-se o filme original mais lucrativo do ano no território japonês, desconsiderando adaptações de propriedades intelectuais já existentes. Com suas três horas de duração, a obra apresenta-se como um desafio ambicioso, acompanhando a trajetória do protagonista Kikuo (interpretado por Ryo Yoshizawa na fase adulta), um aprendiz de kabuki com origem yakuza cuja ascensão e queda adquirem proporções verdadeiramente operísticas.

Assim como ocorre com diversos filmes contemporâneos, independentemente de sua origem geográfica, “Kokuho” poderia ter se beneficiado de uma edição mais rigorosa e concisa. Algumas subtramas não se integram de maneira tão coesa quanto o drama central, que explora fundamentalmente as complexidades da masculinidade em conflito. O diretor Lee ameniza as nuances homoeróticas (esta definitivamente não é uma narrativa explicitamente “queer”) mas ainda assim convida o espectador a considerá-las enquanto acompanhamos o desenvolvimento de uma profunda amizade ao longo da vida entre Kikuo e Shunsuke (Ryusei Yokohama), filho do mestre de kabuki que instrui Kikuo e, tecnicamente, o herdeiro legítimo do legado artístico da família.

A expressão “já foi decidido” surge repetidamente ao longo de “Kokuho”, funcionando como uma referência à fidelidade da cultura japonesa às tradições ancestrais, à tendência de atribuir reviravoltas dramáticas na existência (e mesmo decisões burocráticas cotidianas) a uma espécie de inevitabilidade cósmica. De modo similar, a repressão emocional vivenciada por homens e mulheres japoneses representa, tanto no filme quanto na realidade social, simplesmente parte integrante da vida, uma vez que a narrativa atravessa desde os anos 1970 até os dias atuais sem grandes mudanças nas correntes sociais intrinsecamente desfavoráveis à expressão individual. Estabelece-se que Kikuo se tornará a próxima lenda do kabuki, não necessariamente pelo julgamento artístico de Hanai Hanjiro (Ken Watanabe, sempre emocionalmente distante e contido), pai de Shunsuke, mas quase como se o talento de Kikuo na prática artística fosse desconectado de seu posicionamento místico na extensa linhagem histórica de predecessores e sucessores do kabuki.

“Kokuho” concentra-se especificamente em um período extenso da história do kabuki durante o qual homens eram obrigados a interpretar papéis femininos — vestindo trajes tradicionais femininos completos, maquiagem facial branca como pó e adotando uma voz aguda que poderia parecer irritante, mas que se revela ternamente devastadora precisamente por seu contraste com as pressões sociais externas ao palco kabuki que exigem a manutenção de um registro masculino dominante. Quando, nos anos 1980, Hanai (Watanabe) sofre um colapso médico, tossindo sangue no palco enquanto diabetes não tratada se apodera dele juntamente com a consciência de que seu tempo acabou, o impulso instintivo é cobri-lo com um tecido vermelho em vez de romper o decoro cênico. Ou, de forma mais ampla, o decoro da vida social em geral.

“Sua derrocada chegará”, é o que ouve um jovem Kikuo (interpretado por Sōya Kurokawa na adolescência) enquanto inicia sua escalada na forma artística após testemunhar o assassinato de seu pai yakuza e fracassar de maneira pouco cerimoniosa em vingar o homicídio. Paralelamente, Shunsuke (interpretado por Keitatsu Koshiyama quando criança) aspira tornar-se um “ator de verdade”, talvez não um ator de kabuki, que carrega consigo uma camada literal pesada de artificialismo, e assim quando seu pai adoecido decide adotar Kikuo como seu verdadeiro herdeiro artístico, Shunsuke, devastado emocionalmente, abandona o ninho familiar.

As vidas dos dois personagens continuam oscilando e entrelaçando-se ao longo das décadas seguintes, culminando em uma reunião como o Han-Han Duo, dupla de dramatistas especializados movimentando-se em trajes decorados elaborados. O diretor Lee demonstra fascínio e até mesmo absorção pela elegância dos movimentos no palco, e se ao menos esses dois pudessem transitar com tal graciosidade pela vida: alcoolismo, depressão, explosões de fúria e, em determinado momento, pés gangrenados passam a definir suas existências fora da passarela hanamichi sobre a qual encenam o kabuki para platéias extasiadas.

“Kokuho” configura-se integralmente como um filme comercial (ele arrecadou mais de 110 milhões de dólares no Japão) em vez de um filme de arte, mas não deixa de contemplar uma Osaka que parece congelada no tempo, numa atemporalidade da vida convergindo em torno do kabuki, de um Japão cristalizado em âmbar. Embora cartelas tornem as mudanças de período claras, existem poucos marcadores reconhecíveis que façam o espectador pensar “ah, certo, estamos nos anos 80 agora”. Isso ocorre porque, por mais rápido (ou neste caso, lentamente) que o tempo esteja se movendo, nada está realmente se transformando. Nem o mundo ao redor do kabuki nem as demandas dentro dele. Mas Kikuo e Shunsuke estão mudando, o que os desloca de um mundo fixado em seu lugar.

A produção ostenta valores de produção bem marcantes, tipo uma direção de fotografia que captura tanto a beleza estética das performances kabuki quanto os momentos mais crus e vulneráveis dos personagens em suas vidas particulares. As atuações de Yoshizawa e Yokohama ancoram o filme com convicção emocional, transmitindo décadas de amizade complexa, rivalidade e conexão profunda através de gestos sutis e expressões contidas que se alinham perfeitamente com o estilo narrativo do filme.

Lee Sang-il demonstra habilidade em equilibrar espetáculo visual com intimidade emocional, mesmo quando o roteiro ocasionalmente se perde em tangentes menos desenvolvidas. O compromisso do filme em explorar as tensões entre tradição e individualidade, entre obrigação social e desejo pessoal, e entre as máscaras que usamos no palco e aquelas que vestimos na vida cotidiana oferece substância temática considerável, ainda que nem sempre seja explorada com a profundidade que merece.

“Kokuho” funciona melhor quando abraça seu próprio núcleo (a relação entre Kikuo e Shunsuke, duas almas ligadas pela arte mas separadas pelas circunstâncias e expectativas sociais). Nesses momentos, o filme transcende suas limitações narrativas ocasionais e oferece um retrato genuinamente comovente da masculinidade japonesa em todas as suas contradições e complexidades. É um filme que exige paciência de sua audiência, mas recompensa aqueles dispostos a mergulhar em seu mundo meticulosamente construído de beleza, tradição e repressão emocional.