A Morte do Demônio: Em Chamas
Terror Sobrenatural – EUA – 16 anos
Título Original: Evil Dead Burn
Direção: Sébastien Vaniçek
Roteiro: Sébastien Vaniçek e Florent Bernard (baseado em argumento de Sam Raimi)
Elenco: Souheila Yacoub, Tandi Wright, Hunter Doohan, Luciane Buchanan, Erroll Shand, Maude Davey, Victory Ndukwe, George Pullar, Greta van den Brink e Keanu Karim
Produção: Rob Tapert, Sam Raimi, Lee Cronin, Bruce Campbell e Romel Adam – Distribuição: Sony Pictures
Poucas franquias de terror conseguiram atravessar mais de quatro décadas sem perder vigor. Desde que Sam Raimi apresentou o primeiro A Morte do Demônio em 1981, a série se reinventou diversas vezes. Agora, com A Morte do Demônio: Em Chamas — sexto filme da franquia —, o cineasta francês Sébastien Vaniçek assume o comando após Raimi tê-lo recrutado pessoalmente, impressionado com o seu debut de estreia em Infestação (2023). A trama coloca Alice (Souheila Yacoub), recém-viúva, em busca de conforto na casa isolada dos sogros. O que deveria ser um reencontro de luto rapidamente se transforma em pesadelo quando seus familiares começam a ser possessados pelos Deadites, um a um, convertendo a reunião familiar numa carnificina infernal. O detalhe que distingue este capítulo dos anteriores: os votos feitos em vida permanecem ativos mesmo após a morte — e esse mecanismo é explorado com inventividade cruel ao longo do terceiro ato.
A escolha de produzir o filme na Nova Zelândia — tradição da franquia desde que o produtor Rob Tapert se instalou no país — trouxe um benefício imprevisto: metade do elenco principal é neozelandês, o que emprestou às dinâmicas entre personagens uma carga dramática e um frescor que diferenciam este Em Chamas dos anteriores. Tandi Wright, que interpreta Susan, a sogra de Alice, é uma das atrizes mais conhecidas da TV neozelandesa e entrega uma performaçce que transita com habilidade entre a ternura genuinamente maternal e a ameaça demoníaca. O grande elogio unânime da crítica, porém, vai para Souheila Yacoub — cujo histórico como ginasta profissional se traduz numa presença física e numa expressividade corporal raras no gênero.
Abrindo com 92% de aprovação no Rotten Tomatoes, A Morte do Demônio: Em Chamas é classificado por múltiplos críticos internacionais como o melhor filme da franquia que não traz Sam Raimi na direção. A fotografia de Philip Lozano, com sua paleta deliberadamente cinza e de baixo contraste, cria uma atmosfera de opressaão persistente que pouco depende dos sustos fáceis — embora eles também estejam lá, em quantidade. A crítica mais honesta aponta que o ritmo frênetico cobra um preço no último terço, quando o filme descansa para uma exposição sobre a mitologia do Necronomicon que retarda o que deveria ser imparatável. No conjunto, porém, é o capcítulo mais sangrento, mais ambicioso emocionalmente e mais visualmente coeso da fase moderna da franquia.
Herança de Narcisa
Drama / Terror Sobrenatural – Brasil – 14 anos
Duração: 85 minutos
Direção: Clarissa Appelt e Daniel Dias
Roteiro: Clarissa Appelt e Daniel Dias
Elenco: Paolla Oliveira, Rosamaria Murtinho, Pedro Henrique Müller e Elvira Helena
Produção: Camisa Preta Filmes – Coprodução: Urca Filmes e Telecine
Vencedor do Prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular no Festival do Rio 2025 (além de passagem pela Mostra de Cinema de Tiradentes e pelo Fantaspoa), Herança de Narcisa chega ao circuito comercial como um dos filmes de terror brasileiro mais aguardados do ano. A trama acompanha Ana (Paolla Oliveira, em papel duplo), que retorna ao casarão carioca do bairro do Cosme Velho onde passou a infância após a morte de sua mãe, a ex-vedete Narcisa. Com o irmão Diego (Pedro Henrique Müller) ao lado, ela começa a revirar o imóvel — até Diego destrancar o camarim da mãe e liberar segredos que deveriam permanecer enterrados. O diferencial que a crítica mais aponta: Herança de Narcisa usa a gramática do terror para falar de ancestralidade feminina, luto e a herçança emocional de relações materno-filiais marcadas por inveja, desejo e afeto mal resolvido. A psicologia analítica de Jung é a lente conceitual da dupla de diretores, que transforma cada elemento sobrenatural numa metáfora sobre o que herdamos das mães que não escolhemos.
Paolla Oliveira, que interpreta tanto Ana quanto a falecida Narcisa, entrega uma performance em dose dupla que é unanimemente apontada como o maior ativo do filme: a distinção entre a filha contida e a mãe expansiva e perturbadora é construída com detalhes de figurino, postura e expressão que mostram uma atriz saindo deliberadamente de sua zona de conforto. A Rolling Stone Brasil destaca que o grande trunfo do roteiro está em subverter expectativas: o que parece um clichê de casa mal-assombrada vai se revelando algo mais sofisticado à medida que as pistas espalhadas ao longo do filme encontram seu destino. A fotografia de Zhai Sichen (profissional chinês radicado no Brasil) constrói uma paleta que equilibra o glamour decadente do casarão com uma iluminação que isola e amedronta sem precisar de escuridão total.
As críticas mais ponderadas apontam excessos simbólicos no roteiro e alguns clichês dispensáveis que a direção não conseguiu completamente neutralizar. No conjunto, porém, o filme adiciona com dignidade à lista ainda curta de bons exemplares do suspense-terror brasileiro (ao lado de O Animal Cordial, 2017; As Boas Maneiras, de 2017; e Prédio Vazio, de 2025) e entrega uma protagonista em formação que o gênero nacional definitivamente precisava.
Primavera
Drama / Histórico / Musical – Itália / França – 14 anos
Título Original: Primavera
Direção: Damiano Michieletto
Roteiro: Damiano Michieletto (baseado no romance Stabat Mater, de Tiziano Scarpa)
Elenco: Tecla Insolia, Michele Riondino
Produção: Indigo Films – Distribuição no Brasil: Imagem Filmes
Damiano Michieletto é um nome consagrado na ópera europeia (diretor de cena do Teatro La Fenice de Veneza, da Royal Opera House e da Ópera de Paris, entre outros) que faz sua estreia aqui no cinema de ficção. Primavera adapta o romance Stabat Mater, de Tiziano Scarpa, situando a trama na Veneza de 1716, quando Antonio Vivaldi assume a direção musical do Ospedale della Pietà, o renomado orfanato que mantinha a orquestra feminina mais prestigiada da Europa. No centro da história está Cecília, uma violinista de talento extraordinário que vive confinada atrás de uma grade, apresentando-se à elite veneziana sem jamais ser vista de frente. A chegada de Vivaldi (um homem de modos secos e personalidade desafiadora, que desperta resistência nos conselhos do orfanato, mas traz inequivocamente novo alento à música do lugar) altera para sempre a trajetória de Cecília.
A crítica internacional é entusiástica. O consenso é que Michieletto transfere para o cinema com autoridade rara a mesma inteligência com que conduz a ópera nos palcos: a música de Vivaldi não é aqui acompanhamento nem ilustração, mas o próprio motor emocional da narrativa. As críticas destacam especialmente o uso das dinâmicas musicais (acelerações, ruptura de linhas melódicas, tensões não resolvidas) como espelho dos estados interiores dos personagens. A Veneza que ele filma é também pouco convencional: não a cidade-postal de canais tranquilos, mas uma metrópole densa, hierarquizada e predominada de dinheiro e status.
Para quem aprecia o cinema que navega nas fronteiras entre a música clássica, o drama histórico e a narrativa de formação feminina, Primavera é uma das estreias mais singulares e menos óbvias desta semana. A presença de Vivaldi (composta com uma aspereza deliberada que foge ao rótulo de gênio manso) dá ao filme uma tensão que poucos cinebiografias musicais conseguem sustentar. Uma obra “suntuosa e austera ao mesmo tempo”, segundo o consenso da imprensa internacional.
O Convite
Comédia / Drama – EUA – 16 anos
Direção: Olivia Wilde
Roteiro: Cesc Gay, Will McCormack, Rashida Jones
Elenco: Seth Rogen, Olivia Wilde, Penélope Cruz, Edward Norton
Produção: Ben BrowningMegan EllisonDavid Permut
O Convite acompanha Joe e Angela, um casal que atravessa um momento delicado no relacionamento e tenta salvar a noite num jantar aparentemente banal com os vizinhos do andar de cima. O que deveria ser uma tentativa de normalidade e reaproximação vai tomando rumos cada vez mais imprevistos à medida que a noite avança, revelando que o encontro é muito mais complicado do que qualquer um dos dois esperava. A premissa de um jantar social que descamba para o confronto é clássica no teatro e no cinema (de “Quem tem Medo de Virginia Woolf?” de 1966, a “O Jantar” de 2017), e o quanto o filme aproveita esse território depende inteiramente da qualidade das suas atuações e da sua habilidade em construir a tensão de maneira gradual e crível. E vemos isso sendo sabiamente aproveitado pela diretora, ao juntar 4 personalidades artísticas que não poderiam ser mais díspares, juntas no que podemos elaborar como uma espécie de laboratório de experimentações humanas. Seth Rogen e Edward Norton estão muito à vontade para deixar (os nossos) nervos à flor da pele.
Toquinho – Encontros e um Violão
Documentário / Musical – Brasil – Livre
Direção: Erica Bernardini
Participantes: Amilson Godoy, Pedro Bial, Ornella Vanoni, Ivan Lins, Jane Duboc, João Carlos Pecci, Andreas Kisser,
Produção: Pandora Filmes, Arteon
O violão de Toquinho é uma melodia única no Brasil, reconhecível em poucos acordes, formado pela convivência com Vinicius de Moraes, Baden Powell e Tom Jobim, e refinado ao longo de seis décadas de carreira ininterrupta. Toquinho – Encontros e um Violão é um documentário que revisita essa trajetória por meio de apresentações ao vivo, registros de bastidores e imagens de arquivo que cobrem diferentes fases da carreira do músico. Ao longo do percurso, emergem as parcerias que definiram seu estilo (especialmente a longa e profunda parceria com Vinicius, da qual nasceram algumas das canções mais queridas do repertório brasileiro) e os processos criativos que sustentam a permanência de sua música no cotidiano de gerações sucessivas de ouvintes.
O documentário também aborda os momentos de virada que moldaram sua identidade artística: a chegada a São Paulo vindo de família italiana, a imersão na bossa nova, a parceria transformadora com Vinicius e a abertura progressiva para outros gêneros e formas de expressão. Para o público que cresceu com as músicas de Toquinho (de Aquarela à “Tarde em Itapoã”) o filme promete ser uma celebração afetiva e musical de uma carreira que, nesses mais de 80 anos do músico, permanece ativa e criativa.
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Não perca os destaques da próxima semana em que teremos “A Odisseia”, novo filme de Christopher Nolan (Interestelar) além de “A Divina Sarah Bernhardt”.
