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Vivendo em Tempos de Policrise: Por Que Você Não Consegue Planejar o Futuro?

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Com a chegada de um novo ano, tradicionalmente nos voltamos para planejar o futuro, fazendo planos e estabelecendo metas. Porém, algo diferente está acontecendo: muitas pessoas relatam dificuldade em visualizar além das próximas semanas. A sensação de viver aprisionado no presente imediato, sem conseguir imaginar um amanhã melhor, tornou-se surpreendentemente comum. Um mundo em que múltiplas crises ocorrem em diversos âmbitos nos deixa sem reação e sem visão sobre o que fazer imediatamente ou (o que é pior) em longo prazo. Foi o historiador Adam Tooze quem popularizou o termo policrise que define bem as notícias do mundo atual.

Adam Tooze

Essa experiência de prisão consciencial não é isolada. Conversas com amigos, postagens em redes sociais e relatos de profissionais de saúde mental confirmam: existe uma epidemia silenciosa de incapacidade de projetar o futuro. Diferentemente da prática budista de viver o momento presente (que traz paz e consciência) essa fixação no agora gera paralisia e ansiedade.

O Fenômeno da “Perda do Futuro”

Profissionais da psicologia com décadas de experiência observam que seus pacientes, de forma generalizada, “perderam o futuro”. A descrição é literal: pessoas que antes faziam planos de longo prazo agora mal conseguem pensar no próximo mês. Quando questionadas sobre o que esperam com expectativa, muitas simplesmente não têm resposta.

Essa dificuldade parece ainda mais intensa do que períodos históricos anteriores de crise. Psicólogos que atenderam pacientes após eventos traumáticos coletivos, como os ataques de 11 de setembro, relatam que o cenário atual apresenta níveis de desesperança e desconexão com o futuro sem precedentes nas últimas décadas.

O que sustenta a humanidade nos momentos mais sombrios é precisamente a crença em dias melhores. Viktor Frankl, sobrevivente de campos de concentração e autor do clássico “Em Busca de Sentido”, desenvolveu o conceito de “otimismo trágico”: a capacidade de aceitar o sofrimento presente enquanto se mantém fé em um propósito maior e em um amanhã mais luminoso. Sua obra demonstra que sem essa perspectiva de futuro, a sobrevivência psicológica torna-se extremamente desafiadora.

Muitos de nós não havíamos compreendido inteiramente a ideia de que um futuro melhor nos sustentava diariamente.

Essa visão tornava as dificuldades mais suportáveis, alimentava nossa criatividade e justificava investimentos de longo prazo — seja em projetos profissionais, relacionamentos ou na próxima geração. Quando essa visão se torna nebulosa, nossa capacidade de produzir, criar e planejar sofre drasticamente.

Planejar o futuro: por que a dificuldade? A ciência explica!

Nosso cérebro não foi originalmente projetado para pensar sobre o futuro (e continuamos não sendo bons nisso). Do ponto de vista evolutivo, nossa espécie passou a maior parte de sua existência focada na sobrevivência imediata, não no planejamento de décadas à nossa frente.

Quando imaginamos nosso futuro, na verdade estamos criando uma espécie de memória antecipada. Esse processo, chamado de “pensamento futuro episódico”, permite que construamos cenários, tomemos decisões e regulemos nossas emoções. Utilizamos essas “memórias do futuro” para navegar o presente — por exemplo, economizamos dinheiro hoje pensando na aposentadoria de amanhã.

O problema surge quando a incerteza radical domina o horizonte. Durante crises profundas, todos os fatores que podem afetar eventos futuros tornam-se imprevisíveis. Isso interfere diretamente em nossa capacidade de “recordar” esses futuros possíveis, tornando o planejamento quase impossível.

Pesquisas recentes demonstram esse fenômeno de forma clara: quando pessoas são lembradas de que o futuro é incerto, sua capacidade de listar eventos futuros possíveis para si mesmas cai em 25%, o processo leva muito mais tempo e elas consideram seus próprios pensamentos menos confiáveis. Simplesmente pensar sobre incerteza bloqueia nossa imaginação prospectiva.

A Era da Policrise

O que torna o momento atual particularmente desafiador não é a existência de uma crise única, mas a convergência simultânea de múltiplas crises que se sobrepõem e interagem entre si. É a tal “policrise” que vem ganhando cada vez mais espaço entre os cientistas sociais.

Vivemos sob instabilidade política em várias regiões do globo, insegurança econômica crescente, aumento do custo de vida, precarização do trabalho potencializada pela inteligência artificial, eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, e a memória recente de uma pandemia global. Todas essas crises acontecem simultaneamente, e seus efeitos se amplificam mutuamente.

Essa confluência de adversidades não é totalmente inédita na história humana, mas sua intensidade e abrangência são notáveis. Durante a crise dos mísseis de Cuba, por exemplo, as pessoas também viveram sob incerteza radical sobre a sobrevivência do planeta. A diferença está na multiplicidade de frentes: não é apenas uma ameaça existencial, mas diversas incertezas atacando simultaneamente nossa saúde, emprego, ambiente, política e economia.

Estudos mostram que quando somos lembrados dessa incerteza radical, não apenas nossa capacidade de imaginar o futuro diminui, mas também nosso senso de identidade pessoal e nosso sentimento de que a vida tem significado são reduzidos. A instabilidade externa contamina nossa estabilidade interna.

Lições da História

A humanidade já atravessou policrises anteriormente, e observar como nossos ancestrais lidaram com elas oferece insights valiosos. Durante a crise da dívida grega entre 2008 e 2010, antropólogos observaram estratégias específicas de sobrevivência psicológica.

Jovens gregos que cresceram acreditando em narrativas de progresso e acumulação capitalista viram, da noite para o dia, esses futuros desaparecerem. Em resposta, a sociedade adotou duas abordagens principais: voltaram-se para a história em busca de cenários familiares, fazendo comparações com períodos de dificuldade anteriores, como a grande fome de 1941. Essas comparações históricas ofereciam não apenas contexto, mas esperança — afinal, aqueles períodos terríveis eventualmente terminaram e deram lugar a tempos melhores.

A segunda estratégia envolvia reduzir drasticamente o horizonte temporal de planejamento. As pessoas “se entrincheiraram no agora”, focando em família imediata, amigos próximos e planos de curtíssimo prazo. Surgiram “micro-utopias” — clubes de ciclismo, jardins comunitários, programas de voluntariado. As pessoas buscaram na comunidade local o que o futuro distante não podia mais oferecer.

Um fenômeno semelhante ocorreu em diversas cidades após os lockdowns da pandemia: surgimento de clubes de corrida, jardins comunitários, programas de vizinhança e iniciativas de apoio mútuo.

Olhando ainda mais para trás na história, o período europeu entre 1644 e 1660 apresenta paralelos notáveis. A Europa enfrentou simultaneamente a Grande Peste, a crise econômica, incêndios devastadores e temores de uma nova era glacial além de conflitos religiosos intensos. Essa policrise do século XVII parecia apocalíptica para quem vivia naquela época. E o resultado disso? Qual foi?

O nascimento do Iluminismo.

(O Grande Incêndio de Londres, Wikimedia Commons)

Da turbulência emergiram formas mais democráticas de governança, descentralização de poder, distribuição de risco econômico, melhorias em saúde pública e maior investimento em ciência e humanidades. As universidades foram fortalecidas, especialistas ganharam voz e a sociedade europeia deu um salto evolutivo.

Recuperando Nossa Capacidade de Imaginar o Futuro

Reconhecer que temos dificuldade de visualizar resultados positivos distantes não significa que eles não existam. Seria imprudente simplesmente parar de planejar.

Podemos continuar pensando nos valores que são importantes para nós e fazer planos ao redor deles (mesmo que precisemos ser mais flexíveis e compassivos conosco mesmos nesse processo).

A abundância de incertezas pode nos fazer olhar para trás com arrependimento, pensando no que deveríamos ter feito há 10, 20 ou 30 anos para estarmos mais preparados. Esse sentimento é paralisante e improdutivo. Quando algo não funciona ou um evento inesperado atrapalha nossos planos, é perfeitamente aceitável mudar de direção. De fato, é até salutar.

Para aqueles que se sentem sobrecarregados sobre o que pode acontecer, aqui vai uma estratégia útil: foque em eventos que provavelmente acontecerão. Isso facilita manter conexão com a versão futura de nós mesmos e planejar de acordo. Se você sabe que quer apoiar a educação de seus filhos, por exemplo, ainda pode trabalhar nessa direção dentro das possibilidades atuais.

É fundamental lembrar que somos mais resilientes do que imaginamos. Um século de psicologia nos retratou como seres frágeis, mas a realidade é diferente. Pessoas que sofrem tragédias e traumas reais tipicamente se recuperam mais rapidamente do que esperam e frequentemente retornam ao seu nível original de felicidade, ou algo próximo disso. Somos uma espécie resistente, mesmo que não saibamos disso!

Escolhendo Nosso Futuro

Talvez a lição mais importante seja esta: nossos problemas podem ser diferentes dos enfrentados no passado, mas a esperança permanece. Temos a oportunidade de escolher qual futuro queremos. E dependendo da versão que escolhermos, isso transforma nossas ações hoje. Podemos fazer escolhas e trabalhar coletivamente em direção a esse futuro.

Não somos especiais no sentido de que nossos tempos sejam totalmente sem precedentes. A história está repleta de momentos em que a humanidade se sentiu encurralada, sem saída, convencida de que o fim estava próximo. E repetidamente, demonstramos a capacidade não apenas de sobreviver, mas de transformar crises em catalisadores para uma evolução social.

Neste novo ano, enquanto lutamos para enxergar além da névoa de incerteza, talvez a melhor estratégia seja equilibrar realismo com esperança, flexibilidade com valores, planos de curto prazo com sonhos de longo prazo, e sempre lembrar: você não está sozinho nessa dificuldade, porque juntos, já atravessamos tempestades piores.

Fontes

Forum conômico Mundial – Policrises

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